terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Invictus


• título original:Invictus
• gênero:Drama
• duração:02 hs 14 min
• ano de lançamento:2009
• site oficial:http://wwws.pt.warnerbros.com/invictus/
• estúdio:Warner Bros. Pictures / Spyglass Entertainment / Revelations Entertainment / Mace Neufeld Productions / Malpaso Productions
• distribuidora:Warner Bros.
• direção: Clint Eastwood
• roteiro:Anthony Peckham, baseado em livro de John Carlin
• produção:Clint Eastwood, Robert Lorenz, Lori McCreary e Mace Neufeld
• música:Kyle Eastwood e Michael Stevens
• fotografia:Tom Stern
• direção de arte:Tom Hannam e Jonathan Hely-Hutchinson
• figurino:Deborah Hopper
• edição:Joel Cox e Gary Roach
• efeitos especiais:CIS Hollywood / CIS Vancouver / Hirota Paint Industries

elenco:
• Morgan Freeman (Nelson Mandela)
• Matt Damon (Francois Pienaar)
• Tony Kgoroge (Jason Tshabalala)
• Patrick Mofokeng (Linda Moonsamy)
• Matt Stern (Hendrick Booyens)
• Julian Lewis Jones (Etienne Feyder)
• Adjoa Andoh (Brenda Mazibuko)
• Marguerite Wheatley (Nerine)
• Leleti Khumalo (Mary)
• Patrick Lyster (Sr. Pienaar)
• Penny Downie (Sra. Pienaar)
• Sibongile Nojila (Eunice)
• Bonnie Henna (Zindzi)
• Shakes Myeko (Ministro dos Esportes)
• Robin Smith (Johan De Villiers)
• Dan Robbertse (Boer)
• Zak Feaunati (Jonah Lomu)
• Langley Kirkwood (George)
• Grant Roberts (Ruben Kruger)
Nota: 5,5 (categoria/parâmetro: filme político)

No auge de seu amadurecimento, Clint Eastwood realiza um de seus piores filmes – embora não seja um filme ruim.
Invictus mantém pontos interessantes ao retratar a África do Sul pós-apartheid e sob o regime de Nelson Mandela, mostrando como este utilizou o rugby como mecanismo de integração racial. Além disso, “Invictus” é o nome de um poema, e a simbologia que esse poema representa no filme lhe dá uma carga intimista que escapa um pouco – não muito, mas um pouco – ao senso comum dos filmes políticos, geralmente mais frios e calculados.

Além do mais, o filme traz a constante de Clint Eastwood que é o tema da intolerância, tema já amadurecido em sua obra, o qual ele domina e consegue abordar de modo preciso e pouco convencional. Após a xenofobia de seu penúltimo filme, o estupendo Gran Torino, aqui se fala de racismo. Contudo, ele não foca somente numa visão maniqueísta de segregação dos negros pelos brancos. Ele mostra como, após o fim do apartheid, essa segregação tendeu-se a se inverter. Aí entram os esforços de Mandela para conseguir uma integração legítima, não apenas em aparências, não apenas uma distorção na lógica de dominação. Aí entra o rugby. Tudo isso o filme mostra muito bem.
Agora, o grande erro está no modo como o filme mostra tudo isso. Os fatos são mostrados com bastante precisão, mas o modo como eles são retratados é ingênuo, cai nos excessos, na idealização, em alguns pontos até no endeusamento e no reverenciamento.
Como foi dito, Invictus sai do modelo frio e calculado dos filmes políticos. Mas após certo ponto ele sai demais; ele transborda numa avalanche de sentimentalismo barato, de romantismo exacerbado, culminando num clímax quase explosivo, com direito a cenas em câmera lenta. O filme não peca por um oposto mas peca pelo outro, e o resultado é catastrófico: o contexto político e social retratado acaba se reduzindo a uma partida de rugby – ao invés de usá-la em prol de si, como ocorreria numa linguagem realista.
E ai de quem não gosta de esporte. O filme se torna de repente terrivelmente cansativo, enfadonho, interminável. De repente tudo o mais que não é o rugby se perde.
Além de tudo isso, convenhamos: o Mandela de Clint Eastwood é quase o Lula de Fábio Barreto, embora seria exagero afirmar que chegue no mesmo ponto. Ele é o que está sempre disposto a perdoar (“como ele ficou 30 anos numa cela e saiu disposto a perdoar os que lhe prenderam?”), sempre tem frases de efeito para dizer – com forte carga moral – ele que quer sempre o bem para todos, ele que é a encarnação de todas as virtudes. Não que o Mandela real não seja uma pessoa extremamente virtuosa e tenha grandes méritos em sua história de vida. Ao contrário, todos conhecemos seu papel crucial no processo de reintegração racial da África do Sul. Mas, se sem ingenuidade, sabemos que um ser humano é um ser humano.

Ainda há, no filme, uma única tentativa fraca de distanciar a imagem de Mandela da de uma entidade perfeita e idealizada. “Nunca pergunte sobre a família dele. Ele não é um santo, é um homem, tem problemas como nós”. Mas a verdade é: Mandela é mostrado não como um deus, mas um semideus. Não um Zeus, mas um Hércules (aí está a diferença com o Lula de Fábio Barreto, que é de um fato um deus).
Não que construir empatia sobre um personagem seja um erro. Mas fazê-lo de modo a criar um reverenciamento a uma pessoa real... a ignorar as pluralidades de um ser humano... é o cinema como discurso panfletário, não como arte.
O Clint Eastwood que conhecemos em obras como “Sobe meninos e lobos”, “A Conquista da Honra”, “Cartas de Iwo Jima” e os recentes “A Troca” e “Gran Torino” acabou cometendo um deslize. Nada, acredito, que represente uma degradação fatal e irreversível em sua carreira. Esperemos seus próximos filmes.


(É impressão minha, ou Clint Eastwood dá uma de Hitchcock e aparece na platéia da partida final de rugby?)

Na foto, Clint Eastwood dirigindo Morgan Freeman, como Nelson Mandela, e Matt Damon, como o capitão do time de rugby



prêmios:
(essa crítica foi postada antes da entrega da maioria dos prêmios. As devidas atualizações serão feitas após os respectivos festivais)

OSCAR
Indicações
Melhor Ator - Morgan Freeman
Melhor Ator Coadjuvante - Matt Damon

Invictus não ganhou nenhum prêmio no festival do Oscar 2010

GLOBO DE OURO
Indicações
Melhor Diretor - Clint Eastwood
Melhor Ator - Drama - Morgan Freeman
Melhor Ator Coadjuvante - Matt Damon

SCREEN ACTOR'S GUILD AWARDS
Indicações
Melhor Ator - Morgan Freeman
Melhor Ator Coadjuvante - Matt Damon

NATIONAL BOARD OF REVIEW
Ganhou
Melhor Diretor - Clint Eastwood
Melhor Ator - Morgan Freeman
Prêmio de Expressão da Liberdade

A Missão

• título original:The Mission
• gênero:Drama
• duração:02 hs 05 min
• ano de lançamento:1986
• site oficial:
• estúdio:Enigma Productions / Kingsmere Productions Ltd. / Goldcrest Films International
• distribuidora:Warner Bros.
• direção: Roland Joffé
• roteiro:Robert Bolt
• produção:Fernando Ghia e David Puttnam
• música:Ennio Morricone
• fotografia:Chris Menges
• direção de arte:John King e George Richardson
• figurino:Enrico Sabbatini
• edição:Jim Clark
elenco:
• Robert De Niro (Rodrigo Mendoza)
• Jeremy Irons (Padre Gabriel)
• Ray McAnally (Altamirano)
• Aidan Quinn (Felipe Mendoza)
• Cherie Lunghi (Carlotta)
• Ronald Pickup (Hontar)
• Chuck Low (Cabeza)
• Liam Neeson (Fielding)
• Daniel Berrigan (Sebastian)
• Monirak Sisowath (Ibaye)
Nota: 4,2 (categoria/parâmetro: épico)

Apesar de contar com atores consagrados como Robert de Niro e Jeremy Irons, e ter conquistado uma Palma de Ouro em Cannes, e apesar de ser muito eficiente no registro visual do cotidiana e da arquitetura das missões católicas do século XVIII, além de mostrar um pouco a cultura indígena sul-americana, A Missão não é um bom filme. É extremamente conivente com a europeização que os jesuítas impuseram aos índios nativos sul-americanos, considerando, de certo modo, que se a dominação física é um pecado e ilegítima, a dominação cultural não é apenas aceitável, mas extremamente benéfica e fruto de ações humanitárias que têm as melhores das intenções.

A Missão cai no erro crucial de muitos filmes históricos que é simplesmente ignorar a ambivalência e a complexidade do contexto histórico e do processo histórico como um todo e simplificar e reduzir a situação narrada a uma luta épica maniqueísta entre o bem e o mau. Salvo um curto momento de lucidez em que o personagem narrador afirma que é interesse da Igreja manter seu domínio sobre os nativos americanos, já que não é mais soberana politicamente nos países europeus – momento de lucidez esse que não contribui para o desenvolvimento da história narrada e para a caracterização dos personagens – a religiosidade católica não é minimamente questionada – o próprio filme está permeado de simbologias católicas, fato que o torna descaradamente doutrinador – e os missionários são retratados de forma ingênua e mesmo infantil. Por outro lado, os índios convertidos são reduzidos a meros instrumentos manipuláveis, que se desprendem facilmente de sua cultura tradicional e tão arraigada para absorver uma cultura alheia de forma pacífica e até entusiástica – eles aparecem a todo momento defendendo os missionários e o próprio Deus católico. Não que algo semelhante não tenha acontecido historicamente, considerando o enorme poder de persuasão dos jesuítas, mas o filme não dá a nada disso uma dimensão crítica ou sociológica; pode-se dizer até que os índios retratados não têm personalidade, ou melhor, não têm a própria personalidade: eles absorvem a personalidade alheia e tomam ela para si, sem que isso pareça pelo menos um pouco merecedor de uma certa atenção e uma análise mais aprofundada.
E se o bem não é aprofundado, tampouco o mau o é. Os próprios interesses dos portugueses e espanhóis são mostrados só superficialmente, dando a impressão que eles agem mais por pura maldade do que por qualquer outra coisa. Ou ainda: que os interesses são a própria maldade – o chamado “capitalismo comercial” aparece como o grande vilão – em contraste com a pureza de virtudes dos jesuítas: a própria bondade (eles não têm interesse, só querem o bem) – a religiosidade católica aparece como a grande heroína. Não é relevante como historicamente ambos andaram de mãos dadas. Não se menciona no filme, por exemplo, que as missões funcionavam como um instrumento de colonialismo, já que, em troca do apoio da Igreja, o Estado monárquico se responsabilizava pelo envio e manutenção dos missionários, pela construção de igrejas, além da proteção aos cristãos.

Uma coisa é interessante. Muitos jesuítas, de fato, ingênuos, já submersos na moral religiosa que aprenderam desde criancinhas, acreditavam de fato que estavam fazendo o bem supremo aos índios, atuavam por pura “caridade” – outro dogma católico – e não por interesses. Portanto o erro do filme não é mostrar os jesuítas assim, mas compactuar com essa ingenuidade como se ela fosse legítima. Um filme muito melhor far-se-ia talvez demonstrando com um olhar questionador como um religioso absorve os valores da sua instituição até chegar ao ponto de entrar em paradoxo com a própria instituição que lhe ensinou a agir assim – não é isso que acontece quando, seguindo o Tratado de Madri de 1750, a própria Igreja que mandou os jesuítas construírem as missões lhes ordena que expulsem os índios delas?
É uma situação delicada, à qual não é dada importância. Ao invés disso, somos apresentados a um narrador que tenta transmitir carisma por meio de seu inabalável equilíbrio em cima do muro, mas que sinceramente não convence. Mais uma tentativa de bipolarização (jogar toda a maldade em cima de um único vilão, o Estado monárquico, o capitalismo comercial, e manter toda a bondade no herói, a Igreja, mesmo que, na sua eterna busca pela conciliação e pelos melhores caminhos, a pobre coitada tenha cometido alguns erros).

Para completar o quadro, o consagrado de Niro realiza uma atuação chocha, sem-graça, sem muita emoção, apresentando ao longo do filme feições muito parecidas. Seu personagem é um típico mercenário arrependido que se converte – após se infringir uma auto-penitência à lá Jesus Cristo (como se carregar um sacola de entulho montanha acima fosse lhe trazer de volta seu irmão e os índios traficados e etc, como se não fosse tudo um adulo de ilusão pra consciência, como se a moral católica tivesse algum sentido) – e passa a atuar nas missões sob as ordens de Gabriel, personagem de Jeremy Irons, que consegue uma atuação melhor, encarnando bem o jesuíta supercarregado de virtudes que só acredita no amor. A divergência luta armada x amor como modo de resistência é típica, e também pouco desenvolvida: ambos acabam virando personagens caricaturais, ou antes “tipos”.

- Por trás das câmeras
É válido nesse filme o esforço de produção, com o contrato de índios Waunana da Colômbia para interpretar os Guaranis, opção mais trabalhosa e também mais eficaz e verossímil do que o contrato de simples figurantes. Além disso, trata-se de uma tribo que, proporcionalmente ao histórico, vive situação de submissão cultural semelhante à dos Guaranis, dando ainda mais realismo às atuações e as emoções retratadas. Além disso, houve preocupação com a questão social do uso de nativos como atores para que desastres como os de Fitzcarraldo (projeto faraônico do diretor alemão Werner Herzog, que arrastou um navio de verdade morro acima na Amazônia) não se repetissem, embora, de fato, fosse impossível que não houvesse um certo trânsito cultural – unidirecional – durante esse processo, fato que é dissimulado nas entrevistas. Tudo isso é mostrado no extra no lado B do DVD, extra que, afirmo sem qualquer insegurança, é muito melhor do que o próprio filme, apresentando uma abordagem social e realista dos índios Waunana do século XX muito mais competente do que a simplificação romântica dos índios Guarani do século XVIII em A Missão.
A trilha sonora do filme conta com um dos grandes nomes do cinema nessa área, Ennio Morricone, apesar de não ser nada tão absolutamente imperdível.
A projeção nos banqueteia com imagens belíssimas, cenários de estupenda beleza que são capturados pelas lentes das câmeras de modo exemplar, o que rendeu à A Missão um Oscar de melhor fotografia, a única vitória entre as oito indicações que recebeu. Fato que nos remete a uma situação peculiar, nos alertando contra certas generalizações que muitas vezes tendemos a fazer: a Academia de Hollywood, tão comercial, pode, sim, se mostrar mais lúcida do que o consagradamente artístico Festival de Cannes.



prêmios:

OSCAR 1987
Ganhou
Melhor Fotografia

Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Figurino
Melhor Direção de Arte
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora

*BAFTA 1987
Ganhou
Melhor Ator Coadjuvante - Ray McAnally
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora

Indicações
Melhor Direção
Melhor Fotografia
Melhor Figurino
Melhor Filme
Melhor Produção
Melhor Roteiro
Melhor Som
Melhor Efeitos Visuais

David di Donatello Awards
Melhores produtores estrangeiros – Fernando Ghia, David Puttnam

Festival de Cannes
Palma de ouro – Roland Joffé
Grande prêmio técnico – Roland Joffé

Globo de Ouro
Melhor roteiro – Robert Bolt
Melhor trilha sonora original – Ennio Morricone

Ben-Hur


• título original:Ben-Hur
• gênero:Épico
• duração:03 hs 39 min
• ano de lançamento:1959
• site oficial:
• estúdio:MGM
• distribuidora:MGM
• direção: William Wyler
• roteiro:Karl Tunberg, baseado em livro de Lew Wallace
• produção:Sam Zimbalist
• música:Miklós Rózca
• fotografia:Robert Surtees
• direção de arte:Edward C. Carfagno e William A. Horning
• figurino:Elizabeth Haffenden
• edição:John D. Dunning e Ralph E. Winters
elenco:
• Charlton Heston (Judah Ben-Hur)
• Jack Hawkins (Quintus Arrius)
• Haya Harareet (Esther)
• Stephen Boyd (Messala)
• Hugh Griffith (Xeique Ilderim)
• Martha Scott (Miriam)
• Cathy O'Donnell (Tirzah)
• Sam Jaffe (Simonides)
• Finlay Currie (Balthasar)
• Frank Thring (Poncius Pilatus)
• Terence Longdon (Drusus)
• George Relph (Tiberius)
• André Morell (Sextus)
• John Glenn
Nota: 2,0 (categoria/parâmetro: épico)

A obra que salvou a MGM da falência, Ben-Hur é épico e romântico por excelência; daí seu grande sucesso comercial e o arrebatamento do número recorde de 11 Oscar, depois só igualado por outras obras épicas e românticas: Titanic e O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei.

Um punhado de fórmulas – a maior parte delas inspiradas nos preceitos da escola literária romântica – muito bem estruturadas entrelaçadas e lapidadas de modo a cativar até os críticos mais avisados: um herói virtuoso e sempre bem-intencionado (Ben-Hur tem a bênção do próprio Jesus, já que este lhe dá água), pertencente a uma classe abastada que gerará assimilação, empatia e, enfim simpatia por parte do público médio burguês, o escapismo da realidade para um passado romântico e idealizado, um amor artificialmente verdadeiro e com escassa complexidade emocional, dimensões sociais e psicológicas absolutamente superficiais, com personagens caricatos, rasos, e pontualmente definidos sob a estética clássica do bem e do mal (reparem que os cavalos de Ben-Hur são branquíssimos e os de Messala são negros, enquanto os dos personagens que não têm nada a ver com a história têm cores intermediárias), uma religiosidade unilateral que pontuará as normas de conduta e moral expressadas e defendidas pelos mocinhos de modo panfletário e doutrinante. Um enredo cronológico e linear pautado em introdução, desenvolvimento, clímax e desfecho, cativando atenção. E, finalmente, a saga deste tal herói épico-romântico em busca de liberdade, justiça, e vingança (em muitos casos contra a traição de um suposto amigo), aos moldes de uma escola literária iniciada por figuras como Alexandre Dumas. São claras as semelhanças entre O Conde de Monte Cristo e Ben-Hur: ambos iniciam a história com status, ambos decaem à escravidão e aprisionamento, uma melancólica e injusta submissão, e ambos erguem-se novamente ao status, através de um processo de amadurecimento, assimilação de valores – vagos – e busca pela vingança. O mesmo ocorrerá com o Gladiador de Ridley Scott. O mesmo ocorrerá com muitas sagas de muitos heróis românticos em muitos épicos, desde Jesus Cristo, quem sabe o primeiro herói romântico, até Che Guevara, quem sabe o último.

Junte tudo isso a uma brilhante e ofuscante coloração em Techinocolor e gastos megalomaníacos em efeitos especiais e perfeição técnica (Ben-Hur foi o longa mais caro já feito até então e teve um orçamento de 15 milhões de dólares.), e se terá um filme muito bem-sucedido (Ben-Hur teve uma bilheteria de 70 milhões de dólares só nos Estados Unidos). É claro que não basta empilhar um punhado de clichês e esperar o dinheiro entrar; o mérito de obras-chavões que se destacam é a minuciosa articulação dos clichês – de preferência de um grande número deles –, de modo que nenhum se ofusque em prol de outro, em prol de um equilíbrio entre os lugares-comuns, e a inserção neles em um caráter doutrinador que consiga arrebanhar o público sob uma ideologia/crença comum e cativante – no caso, o cristianismo (exemplificando o que foi dito, temos em Ben-Hur este fator elevado ao extremo, com a presença simbólica e messiânica do personagem de Jesus Cristo pontuando toda a obra, sem que nunca vejamos seu rosto, a projeção de seu nascimento com direito a um holofote estrelar e até a representação de um característico milagre bíblico no final do filme). Ideologia que, claro, só deve ser exposta até aquela margem que não abre espaço para que surjam as incoerências e para que as divergências aflorem. Assim, uma contextualização histórica completamente artificial, caricata, e pautada no senso-comum é fundamental.
Assim, deparamo-nos com o melhor exemplar do que o cinema industrial pode nos oferecer. Três horas e meia em que simplesmente não conseguimos desgrudar os olhos da tela, ansiosos por entretenimento: surpreendemo-nos com cada desfecho que já tínhamos previsto que iria acontecer e nos emocionamos com cada demonstração de heroísmo que sabemos não corresponder ao que, no íntimo, acreditamos ser o ser humano. E, até que a projeção finalmente cesse, para que a esqueçamos e voltemos a indiferentemente discutir questões cotidianas, sem que nada houvesse mudado ou que um lapso de reflexão houvesse sido incutido em nossa cabeça, acreditamos de fato que o ser humano pode amar seu inimigo, que a justiça será feita, e que a lepra tem cura.

- Atuação
Burt Lancaster e Paul Newman recusaram o papel de Ben-Hur, mas Charlton Heston deu conta do recado, passando exatamente aquilo a que se presta. Agora, quem realmente enche o saco é Haya Harareet no papel de Esther, a ex-escrava de Ben-Hur que é apaixonada por ele e que passa o filme inteiro com exatamente a mesma cara plácida, o mesmo tom de voz arrastado e sem qualquer vigor que indique uma pontinha sequer de sentimento oculto sob a mera e crua técnica de atuação, e o mesmo modo enfadonho de ficar repetindo tudo aquilo que já sabemos. É impossível dar qualquer credibilidade à personagem ou ao que ela fala, e a culpa é da atriz, que não conseguiu encarnar de modo verossímil o amor ao Ben-Hur e à nascente fé cristã, passando-nos não mais que uma nauseante indiferença e uma indefectível e fria atuação técnica.

- Um lapso de lucidez
O único lapso de lucidez do filme refere-se ao momento em que Ben-Hur afirma que o inimigo não é Messala, mas sim Roma, que fez com o amigo o mesmo que fez à sua família. Se essa lógica fosse de fato seguida, poderíamos até quem sabe chegar num filme de dimensões sociais críticas e personagens menos caricaturados e mais amplos; quem sabe nos deparássemos com um épico mediano. Em contrapartida, a MGM não teria saído do buraco. O que vemos é o caráter redentor da fé cristã nascente como alternativa única e suprema à opressão da Roma pagã e pecadora. Ou seja, por um momento mínimo se ameaçou uma abordagem mais abrangente, contudo, sem abandonar a superficialidade e a perspectiva unilateral, logo caímos de novo na luta clássica do bem contra o mal, sendo que a única diferença ocorrida nesse processo é deixarmos a esfera individual Ben-Hur x Messala e adentrarmos a esfera coletiva Cristianismo x Roma. E o leão agradece até hoje, rugindo, graças a isso, em tantas aberturas de tantos filmes.



Principais prêmios e indicações:

Oscar 1960 (EUA) - 11 vitórias de 12 indicações

Melhor Filme
Melhor Diretor (William Wyler)
Melhor Direção de Arte a Cores
Melhor Ator Principal (Charlton Heston)
Melhor Ator Coadjuvante (Hugh Griffith)
Melhor Fotografia
Melhor Figurino a Cores
Melhores Efeitos Especiais
Melhor Montagem
Melhor Trilha Sonora
Melhor Som
Indicação: Melhor Roteiro Adaptado

Globo de Ouro 1960 (EUA) - 4 vitórias de 5 indicações

Melhor Filme - Drama
Melhor Diretor (William Wyler)
Melhor Ator Coadjuvante (Stephen Boyd)
Recebeu um prêmio especial, dado a Andrew Marton por sua direção na cena da corrida de bigas.
Indicação: Melhor Ator - Drama (Charlton Heston).

BAFTA 1960 (Reino Unido)

Venceu na categoria de melhor filme.

David 1961 (Itália)

Venceu na categoria de melhor filme estrangeiro.

Grammy Awards 1960 (EUA)

Indicado na categoria de melhor álbum de trilha sonora para cinema ou televisão.

Encontros e Desencontros


• título original:Lost in Translation
• gênero:Drama
• duração:01 hs 45 min
• ano de lançamento:2003
• site oficial:http://www.lost-in-translation.com/
• estúdio:American Zoetrope / Elemental Films / Tohokashinsha Film Company Ltd.
• distribuidora:Focus Features
• direção: Sofia Coppola
• roteiro:Sofia Coppola
• produção:Sofia Coppola e Ross Katz
• música:Brian Reitzell e Kevin Shields
• fotografia:Lance Acord
• direção de arte:Mayumi Tomita
• figurino:Nancy Steiner
• edição:Sarah Flack
• efeitos especiais:Gray Matter FX / Rods & Cones


elenco:
• Scarlett Johansson (Charlotte)
• Bill Murray (Bob Harris)
• Giovanni Ribisi (John)
• Fumihiro Hayashi (Charlie)
• Daikon (Bambie)
• Hiroko Kawasaki (Hiroko)
• Anna Faris (Kelly)
• Asuka Shimizu (Tradutor de Kelly)
• Akiko Takeshita (Sra. Kawasaki)
• Ryuichiro Baba (Concièrge)
• Kanuyoshi Minamimagoe (Agente de imprensa)

Nota: 9,0 (categoria/parâmetro: drama)

Uma imagem triste da capital japonesa através do olhar de norte-americanos médios, que traz a indagação se a melancolia é de fato da cidade, ou dos próprios personagens: e se a história não seria soturna em qualquer lugar que se ambientasse. Sofia Coppola conseguiu se mostrar melhor diretora do que atriz, igualando-se ao nível de seu pai e, mais importante, sem confundir-se com ele. Desde o modo de filmar, o viés/perspectiva de narrativa e os próprios argumentos adotados, seu filme tem características tão pessoais que jamais algum entendido poderá afirmar convictamente que “ela copiou o estilo do pai” ou que “ficou às margens dele”. São pessoas diferentes, portanto, com filmes diferentes.

Bill Murray, conhecido pelos seus papéis humorísticos em filmes bobos, consegue aqui uma performance peculiar, com uma expressão plácida que consegue transmitir o tédio do personagem até nos momentos em que aparentemente se diverte (como quando sai a primeira vez com Charlotte, personagem de Scarlett Johansson, e os amigos dela, e no meio da festa se isola com ela num corredor pra fumarem e pra desfrutarem a desilusão com a vida que compartilham. Não estamos acostumados a ver o personagem de Bill Murray fumando, mas sua expressão é de “não tenho nada a perder mesmo”, e sabemos que, se ele precisasse ir até algum lugar comprar o cigarro, ele não fumaria). Quando vai gravar o comercial de uísque, lhe pedem intensidade; mas intensidade... ele não pode dar intensidade. Falta-lhe intensidade na sua vida, falta-lhe paixão. Talvez seu único sorriso verdadeiro seja ao final, quando, encontrando-a em meio à multidão, dá-lhe um beijo, para depois voltar à sua vida acomodada e infeliz com sua família tradicional nos Estados Unidos.

Scarlett Johansson, por sua vez, está fantástica como sempre, e magnificamente lindíssima, também como sempre. Aliás, significativamente, o filme começa com uma tomada da sua bunda. Mas, além da bunda, o rosto da atriz consegue transmitir em cada minúcia as emoções da personagem e essa falta de perspectiva que, num segundo momento, converte-se num quê de admiração a Bob Harris, o personagem de Bill Murray, seu novo amigo naquele lugar onde ela fora parar como que de bagagem.
A extrema beleza física faz com que a atriz seja de forte atrativo para a empresa de entretenimento de Hollywood, mas, ao invés disso, ela se consagrou em ótimos filmes de arte como “Moça com brinco de Pérola” (no qual sua atuação é mais explorada do que sua beleza), algumas obras de Woody Allen e o próprio “Encontros e Desencontros”, fato que sempre me instigou a admirá-la profissionalmente. Contudo eis que recentemente ela surge em pérolas como “Ele não está tão a fim de você” e “O Homem de Ferro 2”; enfim, todos têm seu preço.
Anna Faris, eternamente lembrada pela sequencia de sátiras a filmes de terror “Todo Mundo em Pânico”, faz algumas pontas como uma típica “atriz-Hollywoodiana-que-se-acha”, fazendo-nos a todo momento crer inconscientemente que vai passar um carro do nada e atropelá-la. Esse é problema de atores que acabam se atrelando demais a um certo personagem: é geralmente dificílimo quebrar a associação!
Quanto à trama, trata-se daquele estilo sensacional (que, se bem usado, pode ser um dos mais profundos, senão o mais profundo dentre os usados no cinema) que virou marca do cinema europeu (apesar de, lógico, não ser padrão de todos os diretores do continente) e está sempre associada a ele (se quiserem pasmem pelo fato de Sofia Coppola se norte-americana): um enredo extremamente simples, sem quaisquer mirabolâncias, sensacionalismos ou meros detalhes que escapem à realidade da vida fora das telas, e que, por isso mesmo, consegue ser densamente sensível, captar as entrelinhas das relações e das emoções humanas, explorar o âmago dos personagens e constituir uma parcela do que é o Tratado da Vida que só o cinema com sua arte e magia consegue veicular. Nesse tão eternamente belo estilo de trama, o que está por dentro tem mais relevância do que está por fora: assim, os acontecimentos factuais são poucos, não há objetividade, o enfoque é para a sensibilidade, o psicológico dos personagens, que são dissecados até seu cerne.

Dentro da concepção de seu estilo, Encontros e Desencontros não é a melhor obra já feita. Sobra um ponto aqui que poderá ter sido um pouco mais aprofundado, um ali que poderia ter sido mostrado com mais sensibilidade. Mas nada que realmente desmereça a qualidade do filme; e aliás, estaríamos exigindo demais da praticamente iniciante Sofia Coppola a comparando com seres como Bertolucci e Antonioni. O fato é que, dentro da lógica da produção cinematográfica de seu país e de sua época, a lógica se inverte: é desumano comparar os demais cineastas com ela. Um maior amadurecimento a deixará talvez na trilha de Woody Allen, notável engendrador desse estilo de trama.
O que merece maior destaque no enredo é o fato que, fugindo ao senso comum, ao invés de Bob e Charlotte, em sua crescente amizade, tirarem um ao outro da placidez, da desilusão, e, por assim dizer, da própria falta de paixão que sofrem, o que acontece é diferente: eles compartilham tudo isso. E algo tão sensível é aprofundado de modos emocionantemente sutis: por exemplo o fato de nenhum dos dois, apesar da intimidade que adquiriram e da descrença nos relacionamentos que ambos nutrem, sentir-se suficientemente vivo ao ponto de ter o ímpeto de levar essa amizade mais além e aprofundá-la, transformando-a talvez em amor. Percebe-se que não é falta de desejo de nenhuma das partes: é sim falta de vigor, falta de vida, de ânimo, de ardor, de paixão, é o conformismo levado às últimas consequencias, de modo a desanimarem-lhes até de buscar ao que não há barreira alguma dificultando. Tudo isso se transmuta no que pode ser considerada uma das cenas mais originais e inéditas da história do cinema: um homem e uma mulher, ambos descompromissados (pois, embora tenham contratos formais com respectivos cônjuges, suas almas estão livres), ambos íntimos um com o outro, ambos nutrindo sua vida no outro, deitados numa cama só conversando: sem beijo, sem sexo. Muito tocante e muito imprevisível.

Do mesmo modo sutil, o filme vai construindo protagonistas de modo a incutir que, afinal de contas, o estranhamento deles, essa sensação de despertencimento, de desenquadramento, não é com Tóquio: é com si mesmos. Mas, apesar disso, Tóquio não é apenas cenário: é metáfora desse estranhamento, é o lugar onde os dois simplesmente aparecem, Charlotte acompanhando o marido, Bob acompanhando a carreira, mas nenhum dos dois acompanhando a si mesmo, acompanhando os próprios desejos, a própria paixão, a própria vida. Tóquio está dentro deles, e eles não gostam do que há dentro deles. Além de não gostar: eles são indiferentes.
E terminam o filme indiferentes. Um não é a alma gêmea do outro, não é a criatura divina que veio tirar um ao outro dessa vida acomodada para migrarem juntos à terra da felicidade e do amor eterno. Não é um filme de amor. É um filme de paixão. Ou, mais especificamente, da ausência de paixão. E essa ausência é compartilhada apenas até o momento em que não é necessário desacomodamento, atitudes, posicionamento perante a vida. Enquanto estão morando em quartos do mesmo hotel, eles compartilham essa ausência dentro deles. Então, o transcorrer do cotidiano, do “compromisso/contrato formal com vida” exige que eles se separem: e é isso, eles se separam. Bob voltará para sua família nos Estados Unidos (para o filho que fugiu dele no telefone e para a mulher que provavelmente o mandou fugir), e Charlotte aguardará o retorno do marido que a deixou sozinha no hotel esse tempo todo pra trabalhar. E voltarão não apenas para toda a desilusão que já tinham, mas também para a solidão (pois sabemos que a solidão verdadeira está na alma). Antes de se separarem até chega a haver alguns resquícios, algumas labaredas de paixão: Charlotte volta ao templo budista e dessa vez não se sente deslocada; Bob, ao avistar Charlotte em meio à multidão (o que é um pouco de “coincidência”, mas vá lá, dá-se um desconto), manda seu chofer parar o carro (primeira atitude que toma no filme) para ir atrás dela e, finalmente, lhe dar um abraço e um beijo (segunda atitude que toma no filme). Mas nada disso é, de fato, paixão suficiente para vencer o tédio.
Continuará a vida de sempre, à qual se deve dar qualquer outro nome, pois “vida” é demasiada presunção.

- A cena do beijo

A cena final do beijo é significativa e merece alguns comentários rápidos.
Primeiro, os merecidos elogios por ter escapado à tentação fácil de cair num típico beijo-clichê de final de filme. O beijo é retratado como é, sem romantizações exasperadas, sem sensacionalismo; não é uma coisa de outro mundo, é metaforicamente uma fugaz labareda dessa paixão pela vida que nenhum dos dois sentiam anteriormente a ele, e não voltarão a sentir depois dele. Um resquício de algo adormecido dentro deles, que abriu um olho mas não acordou. É mais triste do que romântico, belo e estapafúrdio, e a sequencia mostra isso bem.
Outro comentário é para um fato interessante: apesar de ambos serem casados, a sensação que temos ao assistir esse beijo não é de traição, é justamente o contrário: eles estariam se traindo se não fizessem isso. A significativa demonstração final e incontestável de que o amor, a vida, e a paixão são muito mais do que cotidianos vazios e contratos formais



Principais prêmios e indicações:

Oscar 2004 (EUA)

Venceu na categoria de Melhor Roteiro Original.
Indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator(Bill Murray) e Melhor Diretor.
Globo de Ouro 2004 (EUA)

Venceu na categoria de Melhor Roteiro, Melhor Ator em Comédia ou Musical e Melhor Filme Comédia ou Musical.
Indicado na categoria de Melhor Diretor.
BAFTA 2004 (Reino Unido)

*BAFTA 2004 (Reino Unido)

Venceu nas categorias de Melhor Edição, Melhor Ator Principal e Melhor Atriz Principal.
Indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Original.
Sofia Coppola foi indicada ao Prêmio David Lean.
Indicado ao Prêmio Anthony Asquith para Melhor Música.
Prêmio Bodil 2005 (Dinamarca)


*Grande Prêmio BR do Cinema Brasileiro 2005 (Brasil)

Indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.
Prêmio César 2005 (França)

Venceu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.
Prêmio David di Donatello 2004 (Itália)

Indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

*Independent Spirit Award 2003 (EUA)

Venceu nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Roteiro.
Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2003 (Brasil)

Recebeu o Prêmio da Crítica.
Festival de Veneza (Itália)

Sofia Coppola recebeu o Prêmio Lina Mangiacapre.
Scarlett Johansson recebeu o Prêmio Upstream.

Dublê de Corpo

• título original:Body Double
• gênero:Drama/Suspense
• duração:114 minutos
• ano de lançamento:1984
• direção:Brian de Palma
• roteiro:Brian de Palma
elenco:
• Craig Wasson (Jack Scully)
• Melanie Griffith (Holly Body)
• Gregg Henry (Sam Bouchard)
• Deborah Shelton (Gloria Revelle)
• Guy Boyd (detetive Jim McLean)
• Dennis Franz (Rubin)
• David Haskell (Will)
• Rebecca Stanley (Kimberly Hess)
• As Israel (Corso)
• Steven Bauer (diretor assistente de fime)
Nota: 6,7 (categoria/parâmetro: suspense)

Colcha de retalhos de duas grandes obras do mestre do suspense Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai e Janela Indiscreta, “Dublê de Corpo” consegue ser um bom filme, mesmo ficando às margens de seus grandes inspiradores.
Aqui Brian de Palma como sempre exibe suas habilidades de câmera e muito sangue, além de articular uma minuciosa trama com um final imprevisível digno de um bom suspense (apesar de, sob certas perspectivas, ser um tanto forçado).
O peculiar no filme foi que o que foi de imediato julgado falha, inverossímil ou lugar-comum mostrou-se, com o desenvolver da história, detalhes cruciais e justificativas para que a reviravolta da trama ocorresse. Alguns exemplos:
- que mulher em sã consciência faz uma dança erótica e se masturba na sala de sua casa com as persianas abertas todo santo dia pontualmente no mesmo horário (“como um reloginho”, como diz Sam Bouchard, interpretado por Gregg Henry)? O que parece num primeiro momento pretexto inverossímil e absurdo para que Jack (Craig Wasson) tivesse alguma gostosa que pudesse espiar de sua janela (dando ao filme um toque erótico que lhe garantisse maior público) e por quem pudesse se apaixonar depois (dando ao filme um toque romântico que lhe garantisse ainda maior público), num segundo momento mostrou-se parte de uma conspiração inesperada e eixo principal do suspense. Ponto positivo.
- o vilão terrivelmente feio apresentado no início da história deu a entender que se tratava de mais um “embate” entre o “bem” belo e charmoso e o mal, que, além de mal, é feio. Ou seja, eco de um mecanismo usado desde os contos de fada da Disney até muitas comédias românticas atuais que serve para, associando maldade com feiúra, enfatizar a necessidade e a virtude de se estar encaixado dentro dos padrões convencionais de beleza vinculados pela mídia e pela exportação norte-americana. Mas, apesar de sabermos que uma máscara tão feia era em suma desnecessária, o fato é que era apenas uma máscara, tratando-se o vilão de uma pessoa normal, e mais do que normal: não uma síntese de toda a maldade do mundo, mas apenas um ser humano interesseiro e manipulador. Ponto positivo.
Além disso, há aquela cena porca da perseguição (Jack perseguindo sua “musa da dança erótica”, Gloria Revelle, interpretada por Deborah Shelton, em prol de protegê-la do “homem feio suspeito” que também a persegue). Jack é tão terrivelmente indiscreto que ficamos indignados durante toda a cena, pensando “caramba, que mulher lerda! Como ela não viu o cara ainda?” Mas, conforme ela afirma depois, ela o vira sim. Não é exatamente um indulto: primeiro porque, mesmo assim, Brian de Palma, com toda sua técnica, poderia ter realizado uma perseguição mais plausível, segundo porque, se ela o vira e estava com medo, era natural que parasse de andar por aí e fosse para algum lugar seguro. Contudo, também não é o fiasco que ameaçou ser. Vá lá, ponto positivo.

Agora, resta supor se essas aparentes falhas de enredo que depois se justificam são de fato perdoáveis ou se são frutos de uma incapacidade do roteirista (o próprio Brian de Palma) de elaborar uma trama de suspense que se mostre verossímil sob ambas as perspectivas possíveis: a aparente, que acreditamos ser verdade durante o decorrer do suspense, e a verdadeira, que descobrimos numa reviravolta ao final da trama. A história como é mostrada só se mostra possível nesta última perspectiva. Ou seja, não é perfeito, mas também não é o fiasco que ameaçou ser.
Agora, fiasco mesmo é a cena em que, totalmente do nada, Jack beija Gloria Revelle, e esta se comporta feito uma atriz pornô no cio. Clichê absolutamente ridículo que, além de fácil atrativo de audiência, de tirar “oh” e “ah” exasperados e ingênuos do publico, serve também de pretexto para de Palma exibir seus dotes circulando a câmera em torno do casal, este que só falta transar lá na praia mesmo. Perder muito tempo aqui com as condenações de sempre é desnecessário.
O último ponto em que o filme deixa um pouco a desejar, embora não seja lá um absurdo, é a coincidência de Jack ter decidido assistir um filme pornô e ter se deparado justamente com a atriz que servira de dublê de corpo a Gloria. Sem esta “pequena” coincidência, a verdadeira trama jamais seria descoberta. Difícil de acontecer, mas não impossível. Dá-se um desconto.
A última cena de “Dublê de Corpo”, depois de concluída toda a trama do suspense, é uma tirada perfeita. Reaceito para as filmagens das quais fora expulso, Jack, atuando como uma espécie de vampiro tarado, tem que se imobilizar para esperar que a produção do filme troque a atriz com que está contracenando pela dublê de corpo. Após a dublê de corpo da vida real, a dublê de corpo do filme – e uma descompromissada denúncia de como as atrizes belas e gostosas do cinema conseguem estar sempre belas e gostosas no cinema. Enquanto isso, passam-se os letreiros com a ficha técnica. Não há muito esclarecimento sobre como Holly Body (Melanie Griffith), após praticamente quase mandar Jack prum manicômio, foi parar nessa cena. Fora isso, uma sequencia final criativa e apropriada.

- Paralelos com Hitchcock

Os paralelos de Brian de Palma com obras clássicas do cinema ficam entre a mera inspiração, a dedicada homenagem, e a desnaturada cópia.
Jack Scully é um personagem limitado pela sua fobia, assim como o policial Scottie (James Stewart) de “Um Corpo que Cai”. Este tem acrofobia (medo de altura), enquanto aquele tem claustrofobia (medo de lugares fechados). Contudo, não obstante várias semelhanças, o argumento principal se distancia: a obra de Hitchcock explora como os nossos medos e traumas podem ser usados em prol dos interesses de outras pessoas; Brian de Palma, com intenções bem menos pretensiosas, passa longe disso. A fobia de Jack é apenas algo a ser superado, cuja superação lhe garantirá uma investida previsível contra o inimigo que o oprime, virando o jogo, além de lhe permitir retornar às filmagens. Talvez uma inspiração, quiçá uma homenagem a um ídolo: não chega a ser uma cópia.
Bem mais próximo talvez esteja o filme do argumento de “Janela Indiscreta”, em que L. B. Jefferis, o personagem de James Stewart se envolve numa conspiração devido à sua atitude de espiar os vizinhos pela janela (igualzinho a “Dublê do Corpo”). Contudo, também nesse caso o que se vê é uma boa piorada no uso que se faz do argumento, também devido às intenções pouco pretensiosas de Brain de Palma. Jeff espia pessoas comuns em seus cotidianos, em uma espécie de “curiosidade” mais do que pela vida alheia, mas pelo comportamento humano. Jack espia uma típica gostosa dançando e se masturbando na janela.


Prêmios:

Brian de Palma Rrcebeu 5 indicações ao Framboesa de Ouro de Pior Diretor, por seu trabalho em "Vestida Para Matar" (1980), "Scarface" (1983), "Dublê de Corpo" (1984) "A Fogueira das Vaidades" (1990) e "Missão Marte" (2000).

O Diabo veste Prada


• título original:The Devil Wears Prada
• gênero:Comédia
• duração:01 hs 49 min
• ano de lançamento:2006
• site oficial:http://www.devilwearspradamovie.com/
• estúdio:20th Century Fox / Peninsula Films
• distribuidora:20th Century Fox Film Corporation
• direção: David Frankel
• roteiro:Aline Brosh McKenna, baseado em livro de Lauren Weisberger
• produção:Wendy Finerman
• música:Theodore Shapiro
• fotografia:Florian Balhaus
• direção de arte:Anne Seibel e Tom Warren
• figurino:Patricia Field
• edição:Mark Livolsi
• efeitos especiais:Lola Visual Effects

elenco:
• Meryl Streep (Miranda Priestly)
• Anne Hathaway (Andrea "Andy" Sachs)
• Emily Blunt (Emily)
• Stanley Tucci (Nigel)
• Adrian Grenier (Nate)
• Tracie Thoms (Lilly)
• Rich Sommer (Doug)
• Simon Baker (Christian Thompson)
• Daniel Sunjata (James Holt)
• Jimena Hoyos (Lucia)
• Rebecca Mader (Jocelyn)
• Tibor Feldman (Irv Ravitz)
• Stephanie Szostak (Jacquelline Follet)
• David Marshall Grant (Richard Barnes)
• James Naughton (Stephen)
• Gisele Bundchen (Serena)
• Heidi Klum (Heidi Klum)
• Valentino Garavani (Valentino Garavani)

- Breve comentário

Essa fraca comédia romântica é um atestado do desperdício que Meryl Streep anda fazendo com seu talento e uma glorificação ao já suficiente ostentador e artificial (e elitista) mundo da moda – embora a aparente mensagem falso-moralista burguesa-hollywoodiana do filme assemelhe-se a algo como “seja você mesmo”. A personagem de Miranda é soberana e viril, imponente, como que, estando num patamar superior, seja um exemplo a ser seguido; embora se lhe dê toques de humanidade para que a identificação seja ainda maior – assim esculpiu-se assim uma semideusa, com direito a todos os requintes e luxos do gênero. Trata-se de um filme que não nos acrescenta muita coisa, proporciona algum entretenimento e provoca com clichês românticos previsíveis. Está lá o elemento essencial de toda comédia romântica: o protagonista que, arrependido de algo, passa por sua redenção – tipicamente puritana – e, sofrendo ou uma transformação ou um retorno à origem torna-se alguém melhor – tipicamente norte-americano – geralmente apaixonando-se e casando – tipicamente literatura romântica (a literatura alienadora da classe dominante). Um fato é inquestionável: se o papel da moda é o de tornar as pessoas iguais, o de Hollywood não é diferente.



Prêmios:

Academy Awards, USA
2007 Nomeado Oscar Best Performance by an Actress in a Leading Role "Meryl Streep"
2007 Nomeado Oscar Best Achievement in Costume Design "Patricia Field"

BAFTA Awards
2007 Nomeado BAFTA Film Award Best Actress in a Supporting Role "Emily Blunt"
2007 Nomeado BAFTA Film Award Best Actress in a Leading Role "Meryl Streep"
2007 Nomeado BAFTA Film Award Best Screenplay - Adapted "Aline Brosh McKenna"
2007 Nomeado BAFTA Film Award Best Make Up & Hair "Nicki Ledermann" "Angel De Angelis"
2007 Nomeado BAFTA Film Award Best Costume Design "Patricia Field"

Golden Globes, USA
2007 Ganhou Golden Globe Best Performance by an Actress in a Motion Picture - Musical or Comedy "Meryl Streep"
2007 Nomeado Golden Globe Best Performance by an Actress in a Supporting Role in a Motion Picture "Emily Blunt"
2007 Nomeado Golden Globe Best Motion Picture - Musical or Comedy
American Cinema Editors, USA
2007 Nomeado Eddie Best Edited Feature Film - Comedy or Musical "Mark Livolsi"

BMI Film & TV Awards
2007 Ganhou BMI Film Music Award "Theodore Shapiro"

Broadcast Film Critics Association Awards
2007 Nomeado Critics Choice Award Best Comedy Movie
2007 Nomeado Critics Choice Award Best Actress "Meryl Streep"

Chicago Film Critics Association Awards
2006 Nomeado CFCA Award Best Actress "Meryl Streep"

Costume Designers Guild Awards
2007 Nomeado CDG Award Excellence in Costume Design for Film - Contemporary "Patricia Field"

London Critics Circle Film Awards
2007 Ganhou ALFS Award British Supporting Actress of the Year "Emily Blunt"
2007 Ganhou ALFS Award Actress of the Year "Meryl Streep"

MTV Movie Awards
2007 Nomeado MTV Movie Award Breakthrough Performance "Emily Blunt"
2007 Nomeado MTV Movie Award Best Villain "Meryl Streep"
2007 Nomeado MTV Movie Award Best Comedic Performance "Emily Blunt"

National Society of Film Critics Awards, USA
2007 Ganhou NSFC Award Best Supporting Actress "Meryl Streep" Also for "A Prairie Home Companion" (2006).

Online Film Critics Society Awards
2007 Nomeado OFCS Award Best Actress "Meryl Streep"

People's Choice Awards, USA
2007 Nomeado People's Choice Award Favorite Song from a Movie "Alanis Morissette" For the song "Crazy".

Rembrandt Awards
2007 Ganhou Rembrandt Award Beste Buitenlandse Actrice "Meryl Streep"

Satellite Awards
2006 Ganhou Satellite Award Best Costume Design "Patricia Field"
2006 Ganhou Satellite Award Best Actress in a Motion Picture, Comedy or Musical "Meryl Streep"
2006 Nomeado Satellite Award Best Motion Picture, Comedy or Musical
Screen Actors Guild Awards
2007 Nomeado Actor Outstanding Performance by a Female Actor in a Leading Role "Meryl Streep"

Teen Choice Awards
2006 Nomeado Teen Choice Award Movies - Choice Breakout (Female) "Emily Blunt"
2006 Nomeado Teen Choice Award Choice Summer Movie: Comedy
2006 Nomeado Teen Choice Award Movies - Choice Sleazebag "Meryl Streep"
2006 Nomeado Teen Choice Award Movies - Choice Chemistry "Meryl Streep" "Anne Hathaway"

USC Scripter Award
2007 Nomeado USC Scripter Award "Aline Brosh McKenna" (screenwriter) "Lauren Weisberger" (author)

Writers Guild of America, USA
2007 Nomeado WGA Award (Screen) Best Adapted Screenplay "Aline Brosh McKenna"

Os Incríveis


• título original:The Incredibles
• gênero:Animação
• duração:01 hs 55 min
• ano de lançamento:2004
• site oficial:http://www.theincredibles.com/
• estúdio:Walt Disney Pictures / Pixar Animation Studios
• distribuidora:Buena Vista Pictures
• direção: Brad Bird
• roteiro:Brad Bird
• produção:John Walker
• música:Michael Giacchino
• fotografia:Andrew Jimenez e Janet Lucroy
• direção de arte:
• edição:Stephen Schaffer
elenco:
• Craig T. Nelson (Roberto Pêra / Sr. Incrível)
• Holly Hunter (Helen Pêra / Mulher-Elástica)
• Samuel L. Jackson (Lucius Best / Gelado)
• Jason Lee (Bochecha / Síndrome)
• Dominique Louis (Bomb Voyage)

• Teddy Newton (Narrador)
• Jean Sincere (Sra. Hogenson)
• Wallace Shawn (Gilbert Huph)
• Spencer Fox (Flecha Pêra)
• Lou Romano (Bernie Kropp)
• Sarah Vowell (Violeta Pêra)
• Michael Bird (Tony Rydinger)
• Elizabeth Peña (Mirage)
• Bud Luckey (Rick Dicker)
• Brad Bird (Edna Moda)
• Bret Parker (Kari)
• John Ratzenberger (Underminer)
Nota: 6,0 (categoria/parâmetro: animação)

Uma divertida e inteligente animação, que em muitos aspectos foge do convencional, mas que também cai no erro da maioria dos filmes infantis ao possuir caráter doutrinário e moralizante.
Trata-se de um filme que começa excelente e termina péssimo.

-Começa excelente
A família Pêra, apesar de ser composta por super-heróis, se estrutura como uma típica família burguesa, dentro dos moldes tradicionais que são constantemente divulgados (incutidos) pela indústria cinematográfica e pela mídia, notadamente o marketing – fato este que, num primeiro momento, confere ao filme uma poderosa sátira, ácida e ao mesmo tempo muito divertida. Quando, devido a processos e mandatos judiciais – sátira à burocracia e ao sistema legal burguês – os super-heróis são proibidos de exercer seu super-heroísmo, os Pêra se convertem numa família aparentemente normal – sátira à aparente normalidade e estabilidade das famílias tradicionais –, um funcionário público explorado e infeliz pois tem que se submeter à corrupção, uma dona de casa, uma filha meio “gótica” que não consegue se integrar socialmente na escola, um filho “pirralho” que só apronta, e um bebê – sátiras, sátiras, sátiras. E ainda, uma sátira ao próprio super-herói endeusado tal qual o conhecemos; tal qual as crianças o conhecem.
Simbolicamente, o marido, infeliz com aquela estrutura onde foi involuntariamente inserido, busca o refúgio: não na bebida, no jogo ou nas mulheres, pois trata-se de um filme infantil, mas no exercimento ilegal de seu super-heroísmo. Todo esse modo inteligente de trabalhar um roteiro infantil que ao mesmo tempo que é subjetivamente crítico não é denso, pois possui a leveza, o humor o bom entretenimento de toda história pra criança, retrata uma animação pouco convencional, que não se limitou a reproduzir fórmulas da Disney.
Os Incríveis: uma divertida e inteligente animação, que entretém as crianças e proporciona humor hábil para os pais.

- Termina péssimo
“Papai e mamãe podem morrer! Ou pior ainda, podem se divorciar”. Frases como esta dita por Violeta, que dão o tom cômico indispensável às boas animações, também funcionam como mecanismo de transferência às mentes jovens ainda em formação o caráter majoritário, soberano e indiscutível da instituição familiar (esta que, como sabemos, é o pilar-base pra sociedade liberal democrática tal qual a conhecemos); é aquela história inevitável: essa estrutura social se torna tão óbvia e absoluta que sequer é possível imaginar algo diferente. “Estou junto com você, na saúde e na doença, lembra?” a Mulher-Elástica diz ao seu marido. Assim o contrato formal assinado durante a cerimônia burocrática do casamento se torna algo intrínseco. E o valor burguês representado pela família é fincado na mente das crianças sem qualquer pudor como algo absoluto acima de todas as coisas.

(Além disso, o desenvolvimento do enredo acaba mergulhando os personagens nos clichês dos super-heróis que estão aí para salvar o mundo, além de criar um vilão essencialmente mau cuja problemática psicológica é ignorada; assim, não damos qualquer relevância ao seu trauma que o tornou mau: só importa que ele seja mau.)
Se filmes doutrinantes, que incutem valores dominantes através de entrelinhas, já são em si uma safadeza, tornam-se uma covardia quando o público alvo são crianças, cuja concepção de mundo ainda está em formação. Infelizmente, tem sido esse o papel da indústria de animação de Hollywood desde A Branca de Neve e outras hipocrisias.
O papel de filmes infantis é essencialmente diverti-las, mas também auxiliar-lhes em seu primeiro contato com o mundo. E por “mundo” não se deveria ler “American Way of Life”. Até mesmo Violeta transmuta-se numa típica adolescente norte-americana.
Os Incríveis: uma animação banal de mocinho e bandido incrementada de moralismos. Mas diversão garantida para toda a família.


Prêmios:
Oscar 2005 (EUA) Venceu nas categorias de melhor filme de animação e melhor edição de som. Indicado nas categorias de melhor mixagem de som e melhor roteiro original. Globo de Ouro 2005 (EUA) Indicado na categoria de melhor filme - comédia / musical

MTV Movie Awards 2005 (EUA) Indicado nas categorias de melhor filme e melhor equipe (Craig T. Nelson, Holly Hunter, Spencer Fox e Sarah Vowell).

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um violinista no telhado


Direção: Norman Jewison (Curiosidade: ele foi chamado pra dirigir porque os executivos do estúdio achavam que fosse judeu, mas ele não é)
Roteiro: Sholom Aleichem (livro), Joseph Stein (peça teatral e roteiro)
Gênero: Drama/Musical
Origem: Estados Unidos
Duração: 181 minutos

Elenco
Topol (Tevye)
Norma Crane (Golde)
Leonard Frey (Motel Kamzoil)
Molly Picon (Yente)
Paul Mann (Lazar Wolf)
Rosalind Harris (Tzeitel)
Michele Marsh (Hodel)
Neva Small (Chava)
Paul Michael Glaser (Perchik)

Nota: impessoal: 10
pessoal: 7,3
(parâmetro/categoria: musical)

O filme com a abertura mais linda e emocionante de todos os tempos!

Um musical que acerta em todos os pontos. Uma abordagem leve, mas que não é ingênua – escapando ao erro tentador de grande parte dos musicais. Entretém, como qualquer bom musical: coreografias lindíssimas, músicas entre o belo e o divertido interpretadas por cantores magistrais, com destaque para Topol, que interpreta Tevye; cenários exuberantes. Também traz temas profundos, analisando até que ponto a tradição é capaz de interferir na liberdade. O mesmo propósito de outro filme fantástico, Lavoura Arcaica, de Luis Fernando Carvalho, embora a abordagem seja totalmente diferente: este introspectivo, intelectualizado, até tétrico; Um Violinista no Telhado extrospectivo, exuberante, ostentador, eufórico. Ambos se utilizam de metáforas e têm um viés que acaba se mostrando pessimista. Ambas as abordagens são intrinsecamente válidas e, embora eu me identifique mais com Lavoura Arcaica, isso é absolutamente pessoal, não tirando de modo algum o mérito deste filme. Ao seu modo, e com grande êxito, ele explora esse tema que é tão essencial na vida humana: a liberdade.
Esse conflito entre tradição (representada pelos costumes judaicos) e liberdade (representada pelo violinista que toca no telhado, sem estabilidade alguma) é aprofundado num desenvolvimento em que vai se abdicando da tradição em favor da liberdade, até que, num caso extremo, a tradição se torna mais forte, e a filha do meio de Tevye é proibida de casar com um não-judeu. Mostrando que, por mais que se tirar os galhos dessa árvore que é a tradição, o tronco está enraizado no subterrâneo mais profundo. E, ao final, ambos, tradição e liberdade, são esmagados por algo maior, um poder autoritário, uma simples ordem de despejo do czar, este que é mencionado no filme inteiro sem que nunca o vejamos, e cujo motivo da ordem nem nós, nem os judeus expulsos, nem o soldado que os expulsou nunca saberá qual seja. Isso está além da vontade homem, e é irremediável, é absoluto: Tevye tem uma atitude de coragem, ameaça o soldado, resiste a sair de sua propriedade, mas no final não tem jeito. O czar é mais forte que Jeová, e é mais forte que o anseio por liberdade que há no peito de todos nós.
O que resta, ao final, é uma família viajando para Nova York sem a filha do meio, a qual Tevye considera morta, e com um violinista anônimo acompanhando-os, simbolizando, talvez, que a tradição já deixou suas perdas, mas a liberdade ainda poderá proporcionar algumas vitórias.


Paralelos:
O contexto histórico de opressão de uma comunidade inofensiva por um poder absoluto e autoritário possui muitos paralelos ao longo da História. Do mesmo modo, “Um violinista no telhado” faz paralelos com outros filmes que retratam situação semelhante.

Entre eles, destaca-se o fantástico filme romeno “Casamento Silencioso” (foto), de 2009, do diretor estreante Horatiu Maleale, ambientado em 1953, quando da morte do líder psicopata da União Soviética, Joseph Stálin. A cerimônia de casamento interrompida pelas autoridades que vão ao vilarejo anunciar luto nacional pela morte do ditador lembra vagamente a cena de “um violinista...” em que o casamento da filha mais velha é interrompido pelas autoridades do czar (embora o oficial fosse amigo de Tevye e também tampouco soubesse o motivo de ter que destruir o local).


Prêmios:

Oscar 1972 (EUA)

Venceu nas categorias de melhor fotografia, melhor som, melhor direcção de arte e melhor banda sonora adaptada.[1]
Nomeado nas categorias de melhor filme, melhor actor e melhor actor secundário.
Globo de Ouro (EUA)

Venceu nas categorias de melhor filme - comédia / musical e melhor ator - comédia / musical.
Indicado nas categorias de melhor diretor - cinema e melhor ator coadj
*Globo de Ouro (EUA)

Venceu nas categorias de melhor filme - comédia / musical e melhor ator - comédia / musical.
Indicado nas categorias de melhor diretor - cinema e melhor ator coadjuvante - cinema.
BAFTA 1972 (Reino Unido)

Indicado nas categorias de melhor fotografia, melhor edição e melhor som.
Prêmio David di Donatello 1972 (Itália)

Venceu na categoria de melhor ator estrangeiro (Topol).

As Aventuras de Dick e Jane


• título original:Fun with Dick and Jane
• gênero:Comédia
• duração:01 hs 30 min
• ano de lançamento:2005
• site oficial:http://www.asloucurasdedickejane.com.br
• estúdio:Columbia Pictures Corporation / Imagine Entertainment / Sony Pictures Entertainment / JC 23 Productions
• distribuidora:Columbia Pictures / Sony Pictures Entertainment / Buena Vista International
• direção: Dean Parisot
• roteiro:Peter Tolan, baseado em roteiro de Judd Apatow e Nicholas Stoller
• produção:Jim Carrey e Brian Grazer
• música:Theodore Shapiro
• fotografia:Jerzy Zielinski
• direção de arte:Gregory S. Hooper e Troy Sizemore
• figurino:Julie Weiss
• edição:Don Zimmerman

elenco:
• Jim Carrey (Dick Harper)
• Téa Leoni (Jane Harper)
• Alec Baldwin (Jack McCallister)
• Richard Jenkins (Frank Boscombe)
• Angie Harmon (Veronica Cleeman)
• John Michael Higgins (Garth)
• Richard Burgi (Joe Cleeman)
• Carlos Jacott (Oz Peterson)
• Gloria Garayua (Blanca)
• Walter Addison (Sam Samuels)
• Michelle Arthur (Secretária de Dick)
• Stacey Travis (Recepcionista de Jack)

Nota: 1,0 (categoria/parâmetro: comédia)

Dir-se-ia desse filme: mais uma típica comédia à lá Jim Carrey, que não acrescenta nada em nossas vidas, mas, oras, traz momentos divertidos e descompromissados para a família.
Nada disso é verdade, tirando, talvez a parte do “divertidos” (motivo pelo qual não dei zero ao filme). Ao final da leitura entenderão o que estou falando.
A “estética do descompromisso”, adotada por Hollywood desde seus primórdios, esconde muitas intenções por trás de um aparente descompromisso, um filme feito para o riso.
O objetivo primário desse tipo de filme é doutrinar: realçar, difundir e incutir no espectador o estilo de vida norte-americano: o americano-médio, o empresário, a instituição familiar tradicional, a luta pela ascensão na carreira são retratados de modo simpático e sem quaisquer questionamentos, a fim de causar empatia e, consequentemente, assimilação. São estilos de vida tão absolutos que se torna quase impossível imaginar algo diferente. Além disso, usando habilmente grandes chefes de empresas como vilões, o argumento que o filme constrói acaba demonstrando que o podre não está no sistema, na máquina empresarial em si e na busca por lucro característica da sociedade liberal burguesa, mas sim nos determinados chefes de empresa específicos que não conseguem absorver os “verdadeiros ideais americanos” necessários para se tornar maior do que o dinheiro que ele. Uma profunda hipocrisia, já que o próprio ideal americano endeusa e reverencia o dinheiro, o “sonho americano” coloca a riqueza sobre todas as coisas.

De quebra, o filme traz um olhar ameno para o latino-americano que cruza ilegalmente à fronteira em busca da “terra das oportunidades”, e que acaba tornando-se empregado de famílias de classe média ou vivendo na marginalidade. Ao retratar o latino bem-humorado e generoso, inerente à exploração a que ele é submetido, exploração que é devidamente mascarada por um filme de estética descompromissada, “Dick e Jane” se utiliza da mesma manobra de “...E o vento levou”, que retrata os escravos dos latifúndios sulistas sempre se divertindo, contando piadas, de abraços com seus donos e trabalhando noite e dia com um sorriso estúpido na cara. Uma manobra inteligente da máquina de ideologias que é Hollywood, que torna o explorado simpático ao público ao ponto de esquecermos que ele é explorado, disfarçando eficientemente as contradições da democracia liberal burguesa. Manobra que muda de alvo no decorrer das décadas, se adaptando ao contexto (“...E o vento levou”, de 1939, trazia a marca da segregação racial, e “Dick e Jane”, de 2005, traz a marca da segregação cultural, do protecionismo ao “americano de verdade”), mas cujo princípio é o mesmo.
Para completar, ao mostrar de modo cômico e descontraído uma família de classe média que tem que roubar para não ter que vender a televisão de plasma, o filme nos faz esquecer totalmente as famílias de classe baixa que têm que roubar para comprar comida. Mesmo porque, enquanto naquele caso o crime é remediado por uma atitude puritana e inverossímil no fim do filme, típica da falsa moral norte-americana, neste caso não há nem haverá condições de se remediar nada: eles não têm a alma americana, não merecem nem ser lembrados. Somando-se esse argumento sutil ao que é utilizado no retrato dos latinos, percebe-se claramente como Hollywood mascara a luta de classes, o que é uma artimanha tradicional pela qual o capitalismo se mantém, sendo utilizada desde muito antes da criação de Hollywood (“Mascarar a luta de classes” é um termo marxista, e Marx viveu no século XIX). Assim o cinema deixa de ser uma máquina de arte e se torna uma máquina político-ideológica.

Assim, concluindo, muita coisa é acrescentada (o que não é necessariamente positivo) na vida, nas concepções, nos ideais do público ingênuo, sem que ele se dê conta disso. Toda uma carga ideológica é difundida, transferida nas entrelinhas, incutida, seduzindo-nos, fazendo-nos acreditar no que é certo e no que é errado. Sem coragem e uma argumentação convincente, Hollywood, ao invés de realizar filmes explicitamente ideológicos que tentem convencer as pessoas a concordarem e a seguirem sua ideologia dominante (o que seria muito construtivo, no sentido de acalentar debates e reflexões), opta por induzir pessoas com pouco conhecimento através de mensagens subliminares. Ainda manipula todas as falhas, incongruências e contradições do sistema que sustenta, para que as vejamos como saudáveis ou sequer pensemos nelas. Afinal, o vilão é de “Dick e Jane” é de fato Jack McCallister, como se quer mostrar, ou a própria GloboDime?
Afinal, trata-se de um filme descompromissado?




- Um espaço para uma auto-defesa
Existem algumas pessoas de mente fechada que se deparam com esse tipo de análise e, sem maiores reflexões, bocejam: “É só uma comédia pra gente se divertir, como você é mau humorado!”. Se você não é esse tipo de gente, não precisa ler esse tópico, e, caso discorde de algo que eu expus, estou aqui sempre pronto para um acalorado debate; podemos aprender muito um com o outro.
Bom, alguns generalizam e dizem que sou contra todo tipo de comédia. Mas a verdade é que não há nada como um bom Woody Allen ou um Vittorio de Sica em sua segunda fase. Jorge Furtado, a dádiva de Gramado (RS), ou até mesmo os irmãos Coen, que tiveram a imaginação mirabolante de realizar “Queime depois de ler”. Sátiras políticas à lá “Dr. Fantástico” de Stanley Kubrick, o pastelão de Chaplin e até dos irmãos Marx. Tudo isso sem considerar as pérolas incontáveis do grupo Monthy Python, que nos matam de rir em “A vida de Brian”, “O Sentido da Vida” e “Em busca do cálice sagrado”. E é claro que, na falta de algo melhor, sempre há espaço para um bom Mel Brooks.
Até o “cara do mau”, Lars Von Trier, que fez filmes tensos como Dogville e O Anticristo, realizou uma comédia interessante: O Grande Chefe (cujo tema foi mais ou menos retomado pela comédia romântica fraca que é candidata ao Oscar 2010 de Melhor Filme, Amor sem Escalas)
Os exemplos bastam para mostrar que minha birra não é com o gênero de comédia, nem com Hollywood em si (Allen, Kubrick, Chaplin, Brooks, os Marx e os Coen são de lá). Mas com a canalhice implícita em uma corja de filmes de massa padronizadores de pensamentos, difundidos por uma Hollywood que permitiu que o que fora arte se tornasse instrumento de manipulação ideológica (assim como fizeram Mussolini e Hitler).
Perguntem a um típico chefe de empresa quais são seus filmes preferidos. Perguntem o que ele assistia na adolescência, durante a sua formação pessoal.



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Os Normais 2

• título original:Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas
• gênero:Comédia
• duração:01 hs 15 min
• ano de lançamento:2009
• estúdio:Globo Filmes / Telecine Productions
• distribuidora:Imagem Filmes
• direção: José Alvarenga Jr.
• roteiro:Alexandre Machado e Fernanda Young
• produção:Daniel Vincente e Eduardo Figueira
• fotografia:Tuca Moraes
• direção de arte:Cláudio Domingos
• edição:Aníbal Veiga
elenco:
• Luiz Fernando Guimarães (Rui)
• Fernanda Torres (Vani)
• Drica Moraes (Silvinha)
• Danielle Winits (Clara)
• Daniele Suzuki (Zoé)
• Cláudia Raia (Débora)
• Mayana Neiva (Francesa)
• Alinne Moraes (Garota de programa)
• Daniel Dantas (Vizinho)

- Breve comentário





Uma palavra define Os Normais 2: incompetência. Uma hora e meia de projeção atrás de um sexo a três, não conseguir e ainda acabar casando, é uma incompetência por parte dos personagens e, principalmente, por parte dos roteiristas; e uma prova de que a magia do seriado já ficou para trás, na época do primeiro filme. Vale mais a nostalgia, que mantém a lembrança de um casal muito engraçado e muito normal, que nos fazia soltar altas gargalhadas com nossas próprias misérias, do que um resgate artificial que pode vir a estragar a imagem que já faz parte do imaginário popular.



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