domingo, 9 de maio de 2010

Pink Floyd - The Wall


Designed by Gerald Scarfe
With Bob Geldof as Pink
film Music Produced by Roger Waters, David Gilmour and James Guthrie
Executive Producer Steve O’Rourke
Produced by Alan Marshall
Animation Directed by Gerald Scarfe
Screenplay by Roger Waters
Directed by Alan Parker
(dados retirados diretamente do encarte do dvd)
elenco:
• Bob Geldof (Pink)
• Christine Hargreaves (Mãe de Pink)
• James Laurenson (Pai de Pink)
• Eleanor David (Esposa de Pink)
• Kevin McKeon (Jovem Pink)
• Bob Hoskins (Empresário)
• David Bingham (Pequeno Pink)
• Alex McAvoy (Professor)
• Marjorie Mason (Esposa do professor)
• Ellis Dale (Médico)
• Robert Bridges (Médico americano)
• Ray Mort
• James Hazeldine
• Jenny Wright
Nota: 10 (parâmetro/categoria: cinema)

Trata-se meramente de um dos filmes mais poéticos da história. Profundo, sensível, sarcástico, impiedoso, o filme, através de letras delicadas de músicas delicadas e imagens intensamente delicadas, desconstrói toda uma cadeia de valores através da construção de um muro. Construir e desconstruir: é a temática que transpassa toda a obra. E é o que acontece conosco ao nos depararmos com obras de arte verdadeiras: nos construímos e nos desconstruímos. E às vezes isso dói.

- A construção do muro
The Wall quer que doa, e não tem pudor nenhum ao fazer doer. A imagem da mãe de Pink é tão desconcertante porque é terrivelmente material, é uma imagem quase palpável. O filme não constrói uma personagem peculiar, uma mãe que tem determinados defeitos a serem apontados, defeitos que seriam realçados e enfatizados pra justificar o tijolo que ela representa no muro de Pink. Não. A mãe de Pink é um tijolo em seu muro apenas por ser mãe: em última instância, todas as mães são tijolos no muro de seus filhos; em última instância, todos começam a construir seu muro na maternidade.
Nossas mães nos passam seus medos. Não por maldade, ao contrário, por serem mães demais. Ou de menos. Por simplesmente terem parido, por terem em seus filhos uma parte de si mesmas.
Do mesmo modo, a guerra é simplesmente a guerra, não é uma guerra injusta, uma guerra de fins sujos, ou pode até ser, mas isso tudo só seria procedente do fato de em primeira instância tratar-se de uma guerra. Pink perdeu seu pai na guerra, e tudo o que resta é a foto no álbum. Roger Waters transmite-nos tão bem essa sensação porque ele próprio perdeu seu pai na guerra. Mas o fato é que nós próprios, como seres humanos, perdemos muito de nós próprios em todas as gerações passadas perecidas em guerras. Todos nós perdemos nossos pais. A guerra é a lenta degeneração de uma alma coletiva.
Tudo isso é apenas mais um tijolo no muro.
E a escola! Ah, a escola... sendo nada mais que uma continuidade da família, da estrutura de legitimidade e hierarquia da família, da transmissão vertical de conhecimento, nada menos coeso que se constituir em mais um e definitivo tijolo. Rendendo um dos trechos mais famosos do filme, que muitas pessoas conhecem apesar de desconhecerem a existência do filme (eles julgam ser o clipe da música “Another Brick in the Wall part.2”). As crianças compartimentadas como em campo de concentração, trabalhando em uníssono como em linhas de montagem (literalmente sobre esteiras), sendo moídas e tornando-se carne, a matéria bruta, insensível, científica, fria, apática, modelável. A criança ideal. A criança que não vai botar fogo em tudo igual Pink imaginou.
Apenas mais um tijolo nesse muro. Mãe, precisava ser tão alto?

A repressão sexual. Não a repressão a minorias sexuais – o filme não constrói situações peculiares a serem criticadas – mas a repressão sexual dentro do casamento – existiria maior repressão do que num ambiente em que sexo deixou de ser prazer, desejo e paixão para tornar-se um contrato formal? Talvez não dir-se-ia repressão, mas sim opressão. Os tijolos de Pink são muito genéricos, Pink é muito genérico, o filme é muito genérico: ele não trata de particularidades, mas do muro que o homem comum constrói sobre si, o muro que é construído com a ajuda de todas essas instituições nas quais estamos inevitavelmente mergulhados, o muro que quiçá todos nós temos, o muro sem o qual talvez nem conseguíssemos olhar para o horizonte: só olhamos para ele porque não o vemos. Se o víssemos, nos ofuscaríamos.
Todas essas instituições são encaradas não com uma olhar social, metodológico, através de uma ótica de critica objetiva, mas ao contrário, através de uma estética individual, profundamente subjetiva, e não apenas subjetiva, mas poética, absurdamente poética, agonizantemente poética. É uma poesia que brada, que grita, clama, que chora, que não é inoculada na gente, mas que, ao contrário, nos perpassa com a pressão de um tiro. O que são aquelas imagens que resumem absolutamente tudo o que se pode dizer sobre a guerra em alguns minutos? Uma pomba branca voa, voa pelo céu, de repente explode, de dentro dela sai um monstro negro. Aviões de guerra transformam-se em cruzes voando no céu. Seres deformados cujos rostos são máscaras de gás desnorteados, apavorados mas sem rumo a tomar. Uma bandeira da Inglaterra (simbolicamente porque trata-se de um filme inglês): o azul da bandeira desmorona, o que resta assume-se cruz, o vermelho da bandeira escorre como sangue. Essas imagens são tão perfeitamente simples, simples no sentido de claras: elas transmitem tudo sem precisarem dizer nada. Nada além do que declamam as belíssimas letras. Somente o título da música dessa cena já traduz tudo o que tem a ser dito, com três palavras: Adeus céu azul.
E as imagens sobre a relação entre os cônjuges? As que falam sobre a opressão sexual? Sim, aquele momento em que surgem na tela duas plantas, uma em formato fálico, simbolizando o homem, outra aberta como uma vagina, simbolizando a mulher. Se não são essas imagens a mais límpida, simples, e clara poesia não sei o que são. Tudo o que se pode dizer sobre casamento está ali. Ali estão as carícias, os afetos, está o ápice que é a cópula, até que as plantas criam dentes e começam a se destruir mutuamente, tudo o que era promessa vira tragédia, até que uma planta engole a outra, cria asas negras e sai voando. O que precisamos fazer para preencher espaços vazios? Daí parte-se para uma parábola sobre consumismo. Considerando que consumimos pessoas, é simplesmente brilhante.
Como eu posso completar o muro? Pink já tem o espectro da guerra, o espectro da própria mãe, sua “formação” (ou antes “deformação”) escolar, tem sua mulher transando com outro cara, já que com ele isso não é possível. Todos os personagens de sua vida lhe aparecem com a cara pintada de palhaços. E Pink... Pink é um peso morto, afundando em sua cadeira, assistindo tv, com uma lâmpada ao lado (é sempre esse o conjunto, uma cadeira, Pink, uma tv passando um filme de guerra, e uma lâmpada, por mais que o cenário para isso mude, sendo um quarto, um espaço vazio cheio de mato, ou a estação de trem onde estão desembarcando os sobreviventes da guerra). Pink nada faz além de segurar o mesmo cigarro já findo há muitos séculos. Ligar para sua mulher sabendo que ela está transando com outro cara e não vai atender. Assistir tv. Pink não tem mais energia sexual (e visando a análise freudiana segundo à qual isso move o homem, Pink está imóvel). A “moça safada” que tenta lhe seduzir não lhe causa desejo, mas sim um ataque abrupto e intempestivo de furor e violência, em que ele quebra todos os seus móveis e afunda a mão no vidro da janela, deixando marcas que durarão durante o resto do filme. Pink está “confortavelmente entorpecido”.
E agora?

- O delírio
Através de outra imagem de poesia absurda, o filme mostra em Pink o que pareceu ser uma revolução, mas na verdade não é. O corpo de Pink está apodrecendo, ele se assemelha a uma múmia, com várias camadas de pele fétida em decomposição recobrindo o que sobrou – ou não sobrou – dele. Então ele começa a arrancar com as mãos a sua própria pele – essa pele podre. Ele começa a arrancar, vai arrancando, com determinação e violência, e parece inclusive que vai arrancar o último pedaço de si mesmo e sumir, mas de repente, por baixo da pele podre surge outro Pink, ele remove o resto dessa pele como se fosse uma roupa, e surge. Ressurge.
Renasce. Firme, viril, imponente, Líder. Ditador, fascista, racista, anti-semita, homofóbico, preconceituoso. Ao mesmo tempo Hitler e Stálin – o símbolo que ele se cria tem dois martelos, lembrando o martelo soviético, e ele o carrega no braço, semelhante ao modo que os nazistas carregavam a suástica. Ele renasce representando todo o extremismo reacionário, todo o desprezo às minorias, todo manipulador de massas. E as massas ganham a máscara que ele próprio e suas colegas usavam na escola – lembram-se da cena que todo mundo acha que é um clipe?
Isso lembra muito um filme recente de Michael Haneke que se utiliza do mesmo argumento – A Fita Branca. A construção da mentalidade extremista começa em criança, na educação repressiva, nas instituições que nos guiam e às quais nunca estamos inerentes. Mas Haneke é objetivo, é metodológico, quase meticuloso. The Wall mostra o mesmo argumento através de uma subjetividade tão poética que como que entramos no corpo do personagem e percebemos – não apenas entendemos, mas introjetamos – como tudo isso se sucedeu. E também garante ao argumento uma carga menor disso que é um erro crucial de quase todas as análises metodológicas feitas através de obras de arte: o determinismo. De repente Pink sente náusea por esse mecanismo de esquecer o próprio muro sem precisar desconstruí-lo – criar muros em volta dos outros – e berra agonizante: STOP!
E o delírio acaba. Diferente de em “A Fita Branca”, ele não é o tema principal: apenas uma sacada genial.

- A desconstrução do muro
Findo o delírio, Pink volta a reconhecer o próprio muro. E é o momento do julgamento – em suma, um dos momentos mais fantásticos da história do cinema.
Em uma cena longa inteiramente feita em desenhos – aqueles desenhos bem exagerados e expressivos característicos do filme, os personagens da vida de Pink são chamados como testemunhas para depor. E todos eles – professor, esposa e mãe – apenas legitimam a opressão que exerciam, criticando Pink por sua dificuldade em ser feliz com isso. Ao final de uma cena belíssima, o juiz dispensa o jurado, dizendo ser todo ele desnecessário, pois o crime de Pink foi tão indignante, ultrajante, desprezível – afinal, ele fora “pego em flagrante com sentimentos quase humanos”, ele tratara tão mal aqueles que o amaram, que a pena era indiscutível. A pena máxima. Pink seria exposto. Seu muro seria derrubado.
O muro de Pink não foi desconstruído, mas explodido. As interpretações plausíveis para esses momentos finais são várias e incompletas – ainda mais se considerando o finalzinho do finalzinho, em que aparecem crianças recolhendo os destroços do que fora o muro de Pink e os guardando em caminhõezinhos de brinquedos e outros utensílios. Mas uma coisa é clara: trata-se de um filme que precisa ser visto. Pelos sensíveis, pelos apaixonados, pelos artistas. Pelos loucos e alucinados. Pelos bêbados, pelos desvairados e os inconformados. Pelos conformados. E cada um que assistir construa a sua interpretação, que será só sua. Ninguém mais olhará para si mesmo – e para o próprio muro pessoal – do mesmo jeito após The Wall.




Prêmios:

The Wall foi apresentado em 1982 no Festival de Cannes e foi um relativo sucesso de público e crítica. Ganhou BAFTA nas duas categorias às quais foi indicado: Melhor Música Original ("Another Brick in The Wall, de Roger Waters) e Melhor Som

sábado, 24 de abril de 2010

O segredo dos seus olhos


• título original:El Secreto de sus Ojos
• gênero:Drama
• duração:02 hs 07 min
• ano de lançamento:2009
• site oficial:http://www.elsecretodesusojos.com/
• estúdio:100 Bares / Canal+ España / Haddock Films / Tornasol Films / ICAA / INCAA / ICO / TVE / Telefe
• distribuidora:Sony Pictures Classics / Europa Filmes
• direção: Juan José Campanella
• roteiro:Eduardo Sacheri e Juan José Campanella, baseado em livro de Eduardo Sacheri
• produção:Gerardo Herrero, Juan José Campanella e Vanessa Ragone
• música:Federico Jusid e Emilio Kauderer
• fotografia:Félix Monti
• direção de arte:
• figurino:Cecilia Monti
• edição:Juan José Campanella
elenco:
• Ricardo Darín (Benjamin Esposito)
• Soledad Villamil (Irene Menéndez Hastings)
• Pablo Rago (Ricardo Morales)
• Javier Godino (Isidoro Gómez)
• Guillermo Francella (Pablo Sandoval)
• José Luis Gioia (Inspetor Báez)
• Carla Quevedo (Liliana Coloto)
• Rudy Romano (Ordóñez)
• Mario Alarcón (Juez Fortuna Lacalle)
• Mariano Argento (Romano)
• Juan José Ortíz (Agente Cardozo)
• Kiko Cerone (Molinari)
• Fernando Pardo (Sicora)
• Elvio Duvini (Juan Robles)
• Sergio López Santana (Jacinto Cáceres)
• Gabriela Daniell (Alejandra Sandoval)
Nota: 7,0 (parâmetro/categoria: drama)

O lançamento argentino “O segredo de seus olhos” quer falar de paixão, mas fala de obsessão. Nisso reside seu potencial de comoção, assim ele arranca lágrimas, arranca suspiros. Não que seja um mal filme, ou antes um filme dissimulado, demasiado seria acusá-lo de ocultar pretensões maléficas nas entrelinhas; poderíamos chamá-lo, simplesmente, exagerado; em última instância, quiçá, apelativo. Sem querer, uma fórmula para os risos e lágrimas, uma fórmula para o Oscar. Mas apenas sem querer.
Benjamin é aparentemente um homem preso ao passado. Mas Benjamin desconstrói o conceito de passado: “não era outra vida, era essa vida”. Ele é preso, pois, a um determinado objeto presente em seu passado, hoje longínquo. O objeto de sua paixão.
Paixão que permaneceu em estado latente, hibernando, inconsciente de si mesma, até que a experiência, o contato com uma paixão alheia, tão ou mais forte do que a sua – se é que cabe ao conceito de paixão unidades de medida – despertou-lhe o sentimento de si mesma. Ricardo Morales brada “é a minha vida”, ao que Benjamin rebate, negando com o vigor que a paixão que desperta lhe incute. Pois a paixão de Morales não tem o poder da fluidez, a paixão de Morales tem a peculiaridade de ter-se fixado numa instância eterna e imutável a partir do momento em que seu objeto se esvai. As paixões são meramente fluidas quando em harmonia com a fluidez de seu objeto, mas o objeto da paixão de Morales se esvaíra, deixando esta pairando qual um fantasma, um fantasma de pedra, que tomba com o impacto da pedra, disseminando-se com o poder de penetração do fantasma – Benjamin é penetrado, sua paixão desperta como em contato com brasa.
Morales, por sua vez, encontra outro objeto – anexo àquele – para sua paixão, o toma para si, o encarcera, e volta a viver: enfim sua paixão tornou-se novamente fluida. Benjamin tinha razão, não bastavam 25 anos, não bastava o tempo: sem a paixão o homem não sobrevive, e se o objeto da paixão de Morales perecera, só haveria um jeito deste continuar vivo.

Outras paixões, estas secundárias no enredo, são exploradas. Gómez só foi localizado devido à sua incapacidade de esconder sua paixão: não mencionasse tantas referências ao Racing Club em suas cartas à mãe, jamais se teria perdido. Sandoval, cuja perspicácia levou a esta pista, pousara a paixão sobre a bebida: seu objeto era o álcool, ele só era vivo enquanto ébrio.
Isso tudo o filme explora, e explora de modo sensível, abstendo-se da racionalidade a fim de construir personagens psicologicamente profundos e de personalidade incoerente – o que consiste, afinal de contas, na maior das coerências, esta que só poucos conseguem traduzir em alguma forma de arte.
Contudo, não obstante tantas sutilezas, resta-nos a pergunta fundamental, a pergunta que nos incomoda durante toda a projeção, esta pergunta que desconstruirá muito do que Campanella e os demais realizadores do filme dedicaram-se tanto a construir: a paixão tem, de fato, um objeto?

Considerando-se como preceito basilar que a paixão consista não na relação de dependência e por vezes fanatismo de um sujeito sobre um determinado objeto, mas sim numa força que, por ter como função impulsionar a vida, garantir aos homens que se levantem todos os dias da cama sabendo que o caos os espera e, mesmo assim, sentindo-se plenos por dentro ao fazê-lo, jamais terá um objeto claro e definido – pois a vida não tem nem terá um objeto (objetivo) claro e definido –, chegamos à fatal conclusão de que houve por parte do filme uma confusão conceitual. Os personagens estão sempre falando sobre vazio, mas não conseguiriam nunca, numa abordagem realista, preencher um vazio interno através de uma relação com um objeto externo. Se Benjamin precisa de Irene – e não apenas das respostas e da força passional que residem em si – para se preencher e ser feliz, isso não é paixão; é, antes, amor. E, quando levado às últimas consequências, conforme acontece no filme, culminando em última instância à dependência e ao fechamento do sujeito em relação a qualquer outro objeto externo que se lhe apresente, obsessão. O exemplo de Benjamin vale para todos os personagens mencionados. Não são, sob qualquer perspectiva possível de análise, passionais; são, antes, obcecados. E das mulheres nem isso se pode dizer, são personagens-objetos, não tem o poder mínimo de constituírem-se em sujeitos. São objetos do que o filme quer definir como paixão, mas que, percebemos, é obsessão.
Toda essa confusão conceitual é acarretada não por má-vontade dos realizadores ou por alguma pretensão de se seguir fórmulas que conquistem prêmios – embora tenha sido esse o efeito repercutido na cerimônia do Oscar de 2010 –, mas sim por uma mão extremamente pesada no que diz respeito ao apelo emocional do filme. O exagero sentimentalista levou à idealização, à idealização levou à perda de realismo, de verossimilhança, e finalmente, num paradoxo fatal, do apelo sentimental. Teríamos um filme em suma muito mais sensível e tocante se, sem nos perdermos em excessos ultra-românticos, dissecássemos o segredo de olhos nos quais brilhasse uma paixão verdadeiramente genuína, uma paixão que impulsionasse o brilho destes olhos independente do que eles estivessem fitando.

-Planos-sequência.
Vi-me obrigado a fazer um tópico somente e nada mais para mencionar os planos-sequência do filme, como o em que a câmera presa a um helicópetero sobrevoa o estádio do Racing Club, passando pelos jogadores até localizar o assassino; e o que se segue pouco depois, acompanhando a perseguição a este assinassino. Fantásticos. Ponto.

-Curiosidade:
"O segredo dos seus olhos" foi o maior sucesso nacional de bilheteria na Argentina em 35 anos: mais de 2,5 milhões de espectadores e arrecadação recorde de 8,5 milhões de dólares. O mesmo aconteceu na Espanha, com salas lotadas e elogios rasgados.



Prêmios:

OSCAR
Ganhou
Melhor Filme Estrangeiro

GOYA
Ganhou
Melhor Filme Estrangeiro em Espanhol
Melhor Revelação Feminina - Soledad Villamil

Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor - Juan José Campanella
Melhor Ator - Ricardo Darín
Melhor Fotografia
Melhor Direção de Arte
Melhor Trilha Sonora
Melhor Roteiro Adaptado

FESTIVAL DE HAVANA
Ganhou
Prêmio Especial do Júri
Melhor Filme - Voto Popular
Melhor Diretor - Juan José Campanella
Melhor Ator - Ricardo Darín
Melhor Trilha Sonora

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Ilha do Medo


• título original:Shutter Island
• gênero:Suspense
• duração:02 hs 28 min
• ano de lançamento:2010
• site oficial:http://www.shutterisland.com/
• estúdio:Paramount Pictures / Sikelia Productions / Phoenix Pictures / Hollywood Gang Productions / Appian Way
• distribuidora:Paramount Pictures
• direção: Martin Scorsese
• roteiro:Laeta Kalogridis, baseado em livro de Dennis Lehane
• produção:Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer e Martin Scorsese
• fotografia:Robert Richardson
• direção de arte:Max Biscoe, Robert Guerra e Christian Ann Wilson
• figurino:Sandy Powell
• edição:Thelma Schoonmaker
• efeitos especiais:New Deal Studios / CafeFX / Gentle Giant Studios / Mark Rapaport Creature Effects
elenco:
• Leonardo DiCaprio (Teddy Daniels)
• Mark Ruffalo (Chuck Aule)
• Ben Kingsley (Dr. John Crawley)
• Emily Mortimer (Rachel Solando)
• Michelle Williams (Dolores Chanal)
• Max Von Sydow (Dr. Jeremiah Naehring)
• Jackie Earle Haley (George Noyce)
• Elias Koteas (Andrew Laeddis)
• Ted Levine (Warden)
• John Carroll Lynch (Deputado Warden McPherson)
• Christopher Denham (Peter Breene)
• Nellie Sciutto (Enfermeira Marino)
• Curtiss Cook (Trey Washington)
• Tom Kemp (Ward C. Guard)
• Drew Beasley (Henry)
• Joseph McKenna (Billings)
• Damian Zuk (Elijah Tookey)
• Patricia Clarkson
Nota: 8,0 (parâmetro/categoria: suspense)

O renomado Martin Scorsese atinge em Ilha do Medo um dos maiores picos de sua força criativa, de sua poesia e de sua intensidade formal. Tratando com muito respeito o tão delicado tema que perpassa incólume tantos anos na tradição do cinema clássico.

- O ciclo
O tema da loucura teve seu berço em 1919 no país que acabara de sair humilhado da primeira grande guerra do século XX. O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Weine, um clássico que marcará eternamente presença na estante de qualquer cinéfilo, é o filme pioneiro da vanguarda que marcou o cinema alemão, o expressionismo. Usando a estética do suspense, O Gabinete do Dr. Caligari é narrado sob o ponto de vista de um louco que delira uma conspiração contra ele; e no final da trama saímos de dentro de sua mente e percebemos o que realmente se passa.
Muito tempo depois, o tema da loucura atingiu seu ápice. O norte-americano Uma Mente Brilhante, de 2001, arrebatou os mais badalados prêmios do Oscar (filme, diretor e roteiro adaptado, além de melhor atriz coadjuvante para Jennifer Connelly), usando determinados aspectos da estética do suspense para narrar sob o ponto de vista de um esquizofrênico uma suposta conspiração; e no final da trama saímos de dentro da sua mente e percebemos o que realmente se passa.
Agora, em 2010, Martin Scorsese lança A Ilha do Medo. O ciclo se fecha.
E qualquer coisa que se faça sobre semelhante tema a partir de então se mostrará desnecessário ou minimamente artificial.


- A loucura no século XXI
A Ilha do Medo é construído com uma meticulosidade técnica imprescindível. Cada passagem, cada enquadramento, cada gesto dos atores é talhado de modo a transmitir a sensação exata. E assim Scorsese constrói uma atmosfera progressiva e gradual de tensão, de despertencimento, de absurdo, conforme faz e desfaz a teia de acontecimentos, conforme reconstrói cada perspectiva, brinca com referenciais e joga com a linearidade e a percepção dos fatos. Não é um filme que pretende passar algo; ele quer nos absorver para dentro dele, quer nos tornar seu protagonista. A cada tomada nos sentimos mais estupefatos, mais assustados, de fato mais loucos, mas ao mesmo tempo mais certos de nosso isolamento num mundo que, ele sim louco, transforma os poucos sãos em ilhas. Em ilhas de medo.
Pois, antes de ser um filme sobre loucura, trata-se de um filme sobre solidão – tema que Scorsese trabalha tão bem desde a obra-prima Taxi Driver. Fazendo uso de uma tétrica poesia, todo o universo que ampara o homem vai se desconstruindo, até que ele se vê não apenas só, mas perseguido, acuado. O homem moderno, frágil, totalmente incapaz de lidar com as próprias fraquezas. O homem que não aceita seu passado, não compreende seu presente e não se vê no futuro. O homem niilista. O homem com medo, aprisionado numa ilha donde não pode escapar: o mundo.
Na dicotomia que reluta em pousar a loucura sobre a sociedade ou sobre o indivíduo, Scorsese assume a postura dos que lhe legaram o cinema, mesmo que para isso se mostre sob certo aspecto conservador. Se o Dr. Caligari não é um diretor de hospício maníaco, mas um homem bom que quer ajudar seus pacientes, e se Weine não se preocupa em manter o tom anti-autoritarista tão essencial naquele pós-guerra, tampouco os diretores do hospício Ashecliffe são conspiradores que realizam experiências com os pacientes (ao estilo nazista); tampouco Scorsese preocupou-se em manter o tom anti-imperialista tão essencial neste pós-nada em que vivemos. Tratamos aqui, ironicamente, de um indivíduo louco num mundo são (voltarei a isso no próximo tópico).
Em certo sentido, pode-se dizer que A Ilha do Medo é o próprio Gabinete do Dr. Caligari do século XXI. Longe de ser um plágio; o fato é que o profundo impacto, ou melhor dir-se-ia espanto, causado no público naquele estágio inicial da arte cinematográfica é reproduzido com assustadora eficácia nesse que talvez seja o estágio final, fatal e derradeiro da arte cinematográfica. Hoje, após tantas décadas de desgaste e tanto ataque do cinema industrial, o cinema artístico sofre um processo de banalização devido ao qual uma projeção do Dr. Caligari não provocaria mais do que uma indiferença com algum toque de tédio. Quem quer ver um filme preto-e-branco, mudo, e ainda por cima vanguardista?
Nesse cenário, Scorsese recupera o espanto, a estranheza, numa obra que, com todos os recursos do seu século, consegue provocar num público que perdeu em empatia aquela mesma sensação de despertencimento que fez os alemães do pós-guerra se indagarem sobre os alicerces da própria lucidez. O filme de Scorsese nos torna sensitivos, faz-nos absorver sensações e traumas num mundo que quer domar nossa sanidade através da razão. Por que, afinal, não apenas acreditamos, mas aceitamos e nos solidarizamos com a loucura de Teddy Daniels (um sublime e espetacular Leonardo DiCaprio nunca imaginável nas épocas de Titanic) tão facilmente? Por que somos tão tendenciosos a compactuar com todo o seu delírio? Por que, mesmo no final, quando nos deslocamos de dentro da mente de Teddy para um plano onisciente, ainda assim relutamos em acreditar que aquilo tudo em que acreditamos era irreal? Por que relutamos tanto em sair da mente do louco?
Até que ponto vai nossa própria sanidade? Até que ponto somos racionais?


- Subjetividade e individualidade: concluindo.
São raras as obras que conseguem abordar determinado tema concomitantemente pela perspectiva social e pela individual. Não constituindo isso necessariamente um defeito, mas uma questão de enfoque, A Ilha do Medo, ao abordar loucura e solidão, é absolutamente complacente com o contexto social que torna os seres humanos loucos e solitários (afinal, não perdemos a sanidade propositalmente).
As origens da loucura de Teddy Daniels são domésticas, e não apenas domésticas, mas subjetivas. Assim, o enfoque individualista da loucura contrasta com a outra obra de Scorsese sobre semelhante tema: Taxi Driver, que retrata um homem cuja “solidão cercada por pessoas” no claustrofóbico ambiente de Nova York lhe tirou todos os resquícios de sanidade (os dois filmes se encontram apenas no protagonista veterano de guerra). E contrasta, por exemplo, com um Stanley Kubrick, O Iluminado, que acompanha a sanidade sendo desconstruída pelo ambiente social no qual o homem moderno se insere: amplo, com tantos espaços disponíveis, mas ao mesmo tempo sem nada para preenchê-los.
Assim, ao seu modo, A Ilha do Medo alcança algo que lhe é peculiar: mostrar ao homem moderno, a despeito do mundo que o cerca, a loucura que reside dentro dele. Todos nós, em algum momento de nossa vida interior, subjetiva e não-cronológica, todos nós afogamos nossos próprios filhos. E nos abortamos do mundo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Hanami - Cerejeiras em Flor


Título Original: Kirschbluten - Hanami.
Origem: Alemanha / França
Ano de lançamento: 2008
Site oficial: http://www.kirschblueten-film.de/
Direção: Doris Dorrie.
Roteiro: Doris Dorrie.
Produção: Harald Kugler e Molly Von Furstenberg.
Fotografia: Hanno Lentz.
Edição: Frank C. Muller e Inez Regnier.
Música: Claus Bantzer.
Elenco:
Elmar Wepper, Hannelore Elsner, Aya Irizuki, Maximilian Brückner, Nadja Uhl, Birgit Minichmayr, Felix Eitner, Floriane Daniel, Celine Tanneberger, Robert Döhlert, Tadashi Endo, Sarah Camp, Gerhard Wittmann e Veith von Fürstenberg.

Comentário(?) breve:

O que falar de Cerejeiras em Flor?
Essa não é uma mera pergunta introdutória. É uma dúvida cruel. Cerejeiras em Flor não é um filme sobre o qual se escreva, sobre o qual se reflita, sobre o qual se indague. Cerejeiras em Flor não é definitivamente um filme para o qual se dê nota. Cerejeiras em Flor é pura emoção, e por emoção não se leia metáfora, pois não há interpretações para tal metáfora. Cerejeiras em Flor é a história de um homem velho, um homem que amava sua esposa sem a compreender e sem a aceitar, um homem cujos filhos o amavam sem compreender-lhe e sem minimamente aceitá-lo, um homem que só conheceu sua esposa - através da arte - depois que esta morreu, quando ele já não podia imaginar onde ela estivesse – mesmo sabendo que ela estava em algum lugar –, mas antes de tudo um homem que nunca se conheceu, um homem que só foi compreendido por uma pessoa – uma pessoa que não foi sua esposa –, ou talvez por duas, mas nenhuma delas portadora de seu sangue ou de seu amor – talvez de sua paixão. Mas Cerejeiras em Flor não é um filme sobre paixão – menos ainda sobre amor; nem sobre a efemeridade em si mesma. É um filme sobre o quê?
Um filme sobre as cerejeiras em flor. Isso é uma metáfora? Não. É uma arte. É uma explosão – ou antes uma implosão.
Não vou falar sobre Cerejeiras em Flor. Não sei – e não me arrisco a tentar a – transcrever sentimentos que ainda não vivi.

Juno


• título original:Juno
• gênero:Comédia
• duração:01 hs 36 min
• ano de lançamento:2007
site oficial:http://www.foxsearchlight.com/juno
• estúdio:Fox Searchlight Pictures / Mandate Pictures / Mr. Mudd
• distribuidora:Fox Searchlight Pictures
• direção: Jason Reitman
• roteiro:Diablo Cody
• produção:Lianne Halfon, John Malkovich, Mason Novick e Russell Smith
• música:Matt Messina
• fotografia:Eric Steelberg
• direção de arte:Michael Diner e Catherine Schroer
• figurino:Monique Prudhomme
• edição:Dana E. Glauberman
elenco:
• Ellen Page (Juno MacGuff)
• Michael Cera (Paulie Bleeker)
• Jennifer Garner (Vanessa Loring)
• Jason Bateman (Mark Loring)
• Allison Janney (Bren MacGuff)
• J.K. Simmons (Mac MacGuff)
• Olivia Thirlby (Leah)
• Eileen Pedde (Gerta Rauss)
• Rainn Wilson (Rollo)
• Daniel Clark (Steve Rendazo)
• Darla Vandenbossche (Mãe de Bleeker)
• Aman Johal (Vijay)
• Valerie Tian (Su-Chin)
Nota: 4,8 (categoria/parâmetro: drama leve)

Nada mais do que um ótimo filme despretensioso para tardes chuvosas, Juno conseguiu grande sucesso entre o público adolescente. Diz-se dele que é pouco convencional, já que, longe de retratar a tão maçante elite juvenil, o garotão de corpo moldado por anabolizantes e a menina de corpo moldado por navalhas, ambos extrovertidos e descolados, longe de buscar bilheteria através de clichês dos filmes teens, corpos impudicos, imoralidades, músicas badaladas e um humor que não podemos nem chamar de negro (porque isso seria um incabível elogio), mas talvez de marrom; longe de tudo isso, Juno retrata uma garota absurdamente normal (sim, ela é estranha, mas ela é tão normal exatamente por ser estranha) e um garoto mais normal ainda que fazem sexo uma vez (com toda a naturalidade que é cabível a isso, ou seja, o sexo é visto sob uma perspectiva amoral). Além disso, o ambiente familiar é coeso à nossa era; pais separados, uma madrasta que não é retratada de modo tirânico, não há idealização, não há sentimentalismo exacerbado, tudo é mostrado com a devida leveza e com uma boa dose do clássico rock’n roll. Filmes trash e cultura pop dão o contorno a essa obra que, de tão fora dos eixos, consegue estar muito mais dentro dos eixos do que tantos filmes que abordam semelhante contexto.
De fato, todos esses elogios são válidos. E eu acrescentaria até mais; realçaria alguns momentos preciosos, como quando Juno está na clínica de aborto e se sente transtornada com o fato de todos a sua volta estarem fazendo algo com as suas unhas – afinal, seu bebê já tem unhas nos dedos! –, ou alguma passagem pouco convencional do ponto de vista formal, como quando Juno descreve o secreto desejo dos garotões pop por moças estranhas, e assistimos a transformação de uma moça pop numa moça estranha através de efeitos da edição.
Contudo, nada disso impede, e em certo nível até ajuda, que Juno se finde em nada mais que um filme despretensioso para tardes chuvosas. Enquanto ganha pontos única e exclusivamente por seu carisma, perde pontos pelo que falta de mais essencial: conteúdo. E profundidade.
O tema da gravidez na adolescência é demasiado delicado, mas tamanha delicadeza não pode poupá-lo do que ele tem de denso. Nesse caso, perde-se em realismo: mesmo que não nos defrontemos com idealizações ou sentimentalismo, nos deparamos perante um filme romântico; um tipo diferente de romantismo. Não é um romantismo que nos quer verter lágrimas, mas sim que, confrontando-nos com nada mais que a superfície de uma questão, nos sussurra ao ouvido: está tudo bem. Mas Juno está grávida. Não está tudo bem.
Entendem o que quero dizer? Juno não parece estar grávida. Nem seu pai a vê como grávida. De fato, ela não está grávida, está “com uma coisa na barriga”. E, quanto mais a projeção vai passando, mais o tema propriamente dito da gravidez vai ficando secundário, cedendo lugar ao ingênuo – porém carismático – amor juvenil, infelizmente não paixão, mas esse amor delicado que une Juno a Bleeker e a faz acreditar que duas pessoas “podem ficar juntas para sempre”. Tudo isso é muito bonito, e quiçá é até mesmo muito sincero; porém é superficial. Os sentimentos humanos, e mais, os complexos e impenetráveis sentimentos juvenis, são abordados como tábuas rasas, são encarados com a simplicidade de contos de fada. E mesmo que os Loring, os pais adotivos, representem uma ramificação realista do enredo, eles nada mais servem que de suporte para a artificialidade pueril do mundo de Juno.
Se Juno é um filme que acerta por não transformar a gravidez na adolescência em um dramalhão, é um filme que peca pelo extremo oposto, ao transformar a gravidez na adolescência em uma história de amor. E se consegue com isso ser extremamente carismático, encantar jovens e provocar-lhes uma profunda empatia, consegue também naturalizar o que de fato é uma aberração.
Gravidez na adolescência não é um tema para tardes chuvosas.

prêmios:

OSCAR
Ganhou
Melhor Roteiro Original

Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor - Jason Reitman
Melhor Atriz - Ellen Page

GLOBO DE OURO
Indicações
Melhor Filme - Comédia/Musical
Melhor Atriz - Comédia/Musical - Ellen Page
Melhor Roteiro

BAFTA
Ganhou
Melhor Roteiro Original

Indicação
Melhor Atriz - Ellen Page

INDEPENDENT SPIRIT AWARDS
Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor
Melhor Atriz - Ellen Page
Melhor Roteiro de Estreia

FESTIVAL DE ESTOCOLMO
Ganhou
Prêmio do Público

FESTIVAL DE GIJÓN
Ganhou
Prêmio Especial do Júri Jovem

sábado, 3 de abril de 2010

A Fita Branca


• título original:Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte
• gênero:Drama
• duração:02 hs 24 min
• ano de lançamento:2009
• site oficial:http://www.lerubanblanc.com/
• estúdio:Wega Film / X-Filme Creative Pool / Lucky Red / Les Films du Losange / Austrian Film Institute / Mini-Traité Franco-Canadien / Medienboard Berlin-Brandenburg / Mitteldeutsche Medienförderung / German Federal Film Board / Deutsche Filmförderfonds / Vien
• distribuidora:Sony Pictures Classics / Imovision
• direção: Michael Haneke
• roteiro:Michael Haneke
• produção:Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz, Margaret Ménégoz e Andrea Occhipinti
• fotografia:Christian Berger
• direção de arte:Anja Müller
• figurino:Moidele Bickel
• edição:Monika Willi
• efeitos especiais:LISTO Videofilm
elenco:
• Susanne Lothar (Esposa)
• Ulrich Tukur (Barão)
• Burghart Klaubner (Pastor)
• Josef Bierbichler (Camareiro)
• Marisa Growaldt (Fazendeira)
• Christian Friedel (Professor)
• Leonie Benesch (Eva)
• Ursina Landi (Baronesa Marie-Luise)
• Steffi Kühnert (Anna)
• Gabriela Maria Schmeide (Emma)
• Rainer Bock (Médico)
• Maria-Victoria Dragus (Klara)
• Leonard Proxauf (Martin)
• Janina Fautz (Erna)
• Michael Kranz (Hauslehrer)
• Levin Henning (Adolf)
• Thibault Sérié (Gustav)
• Enno Trebs (Georg)
• Theo Trebs (Ferdinand)
• Sebastian Hülk (Max)
• Kai-Peter Malina (Karl)
• Aaron Denkel (Kurti)
• Anne-Kathrin Gummich (Mãe de Eva)
• Detlev Buck (Pai de Eva)
• Ernst Jacobi (Narrador)
• Birgit Minichmayr (Frieda)
Nota: 9,2 (parâmetro/categoria: drama pesado)

Não é originalidade minha dizer que a primeira coisa a se ressaltar em A Fita Branca é sua fotografia. Mas de fato, a inserção daquela pequena comunidade em uma atmosfera P&B, além da atuação impecável de cada um dos atores, nos proporciona minuciosamente a absorção pra dentro desta comunidade, daquele ambiente dissimulado, que passa tensão nas entrelinhas, que é aparentemente banal mas que talvez – segundo algumas interpretações – guarde em si o embrião de uma bomba – o nazismo.

- Estudo antropológico
A Fita Branca tem semelhanças contundentes com um clássico do cinema, o maravilhoso Dogville, de Lars von Trier.
Ambos os filmes transportam o macrocosmo que é uma civilização para o microcosmo que é uma pequena vila. Ambos os filmes retratam essa personificação de forma intrinsecamente pessimista, desnudando a crueldade da alma humana – em suas respectivas contextualizações. Ambos retratam as dissimulações, evidenciando o que se esconde por trás do véu de éticas e morais dos habitantes simples da pequena comunidade. Ambos nos mergulham em uma atmosfera lúgubre e tensa – utilizando em sua construção recursos formais bem peculiares: Lars von Trier com seu cenário minimalista e Michael Haneke com sua fotografia P&B e formato quase que documental.
Contudo há diferenças. Aquele é mais vanguardista: envolto em poesia, construção de metáforas e uma linguagem mais espontânea. Este é mais técnico. Tem pretensões antropológicas. Ele busca respostas.
Ele as consegue?

- O homem é o lobo do homem
Encantei-me com A Fita Branca por enxergar nele um libelo contra a educação repressiva e moralista que guarda em si tantas hipocrisias. Desde o pastor tão profundamente maniqueísta, que vê em tudo formas de expressão do pecado e da não-pureza, mesmo a expressão da sexualidade latente de seu filho na fase da puberdade – o garoto tem as mãos amarradas para que não se masturbe, pois um certo garoto que se masturbara supostamente acabara morrendo. Até o médico que, talvez não controlando um quê de culpa pela morte da mulher pela qual não conseguia demonstrar amor, assedia sexualmente sua filha, esta que é “tão parecida com a mãe”. Passando pelo professor que, ingênuo demais para exteriorizar tal crueldade – além de ser o narrador, motivo que torna sua personalidade unilateral e impecável (no estilo de Dom Casmurro) –, nutre um egoísmo que sua narrativa é incapaz de esconder, egoísmo esse que faz com que de fato não se importe com todos os absurdos que estão acontecendo ao seu redor, limitando-se a cuidar da própria vida – cortejar sua amada, acabar lutando na guerra, ir morar na cidade e nunca mais ver o povo da comunidade – e a analisar os fatos com um distanciamento acadêmico – uma mera curiosidade que não é o suficiente para fazê-lo ir adiante em sua denúncia quando, ao final, descobre os responsáveis pelos crimes.
Encantei-me com A Fita Branca pela metáfora que insere em seu título – a fita branca, da cor da pureza, é atada às crianças pecadoras para que não se esqueçam o que é esperado delas. A fita branca que é tirada das crianças quando estas já são julgadas puras, quando elas podem enfim agregar-se socialmente. A fita branca que novamente deve ser atada, ao livre critério do pastor e de sua leitura maniqueísta do contrato social. A fita branca é o símbolo de tudo o que aquela pequena comunidade representa. O objeto que, sendo um rótulo, um representativo da castidade, da boa moral e dos bons costumes, oculta o que há de mais opressor, oculta o autoridade, a hierarquia, a imposição social, a restrição da liberdade individual. A fita branca atada às crianças tem o mesmo valor que uma algema. Uma corrente. É um filme iconoclasta. E mais que iconoclasta, anticlerical. Mais que anticlerical, anti-autoritarista. Anti-fundamentalista. Um filme quase anárquico.
E encantei-me com A Fita Branca por mostrar, enfim, o resultado dessa educação tradicional. Mostrar que ela gera não crianças militarizadas, intrinsecamente fiéis à hierarquia, puras e assexuais. Mas faz com que todos os desejos reprimidos, todos os anseios que acompanham inevitavelmente a natureza humana, toda a perversidade da qual nos falou Freud, todo o instinto animal não simplesmente sumam, mas se encolham e se aglomerem de um modo progressivo, ficando latentes, até que a pressão seja demasiada e enfim tudo exploda, voando cacos para todas as direções. Poderíamos, sob outro sistema educacional, talvez amenizar o que temos de mais rudimentar afim de se estabelecer um contrato social estável, mas é impossível, conformem desejam os educadores da fita branca, suprimir e fazer desaparecer o que temos de mais rudimentar afim de criar seres humanos robotizados. A educação opressora guarda em si seu antagonismo (ainda mais quando os próprios educadores são de forma dissimulada tudo o que combatem), e não gera robôs, mas seu oposto: gera monstros. Gera lobos. É o homem de Thomas Hobbes levado às últimas consequências.
Sim. Michael Haneke consegue suas respostas.

-Suas próprias palavras
Aqui entram algumas divergências. Claro que, curioso insaciável que sou, não bastei a Fita Branca ao meu encanto. Fui buscar coisas para ler sobre o filme.
E deparei-me com muita gente dizendo que o filme era uma parábola sobre o surgimento do nazismo. As crianças seriam os futuros nazistas. Quê? Eu não tinha “pegado” nada disso.
Ou seja – deduzo –, se Lars von Trier faz um estudo sobre a sociedade norte-americana, Michael Haneke faz um estudo sobre o nazismo alemão. Será mesmo?
João Pereira Coutinho, da Folha, chega mesmo a afirmar que A Fita Branca reduz o nazismo a um problema de autoestima alemão. E que, colocando um nazista como vítima, o absolveria de seus crimes.
Mesmo sob esse viés, aceitando o filme como uma parábola, o fato é que explicar que uma mentalidade perversa não surge do nada, mas tem uma raiz social, não significa absolvê-la. Significa extraí-la do maniqueísmo romântico segundo o qual o mal é o puro mal apenas por ser o mal e nada mais que o mal, e inseri-la num contexto plurilateral a partir do qual, partindo de determinadas tendências acadêmicas, se buscará uma maior compreensão histórica das respectivas ações humanas. Compreensão que extravasa moralismos e a necessidade insaciável de se estar sempre julgando as coisas, se colocando no patamar de classificá-las entre certas e erradas.
Mas mesmo assim, não pude deixar de pensar que a tendência de relacionar qualquer coisa vinculada à Alemanha com nazismo é até hoje algo incurável. Para minha sorte, achei na internet – no site da ig – as palavras do próprio diretor:
“Não ficaria feliz se esse filme fosse visto como um filme sobre um problema alemão, sobre o nazismo. Este é um exemplo, mas significa mais que isso. É um filme sobre as raízes do mal. É sobre um grupo de crianças, que são doutrinadas com alguns ideais e se tornam juízes dos outros – justamente daqueles que empurraram aquela ideologia goela abaixo deles. Se você constrói uma idéia de uma forma absoluta, ela vira uma ideologia. E isso ajuda àqueles que não têm possibilidade alguma de se defender de seguir essa ideologia como uma forma de escapar da própria miséria. E este não é um problema só do fascismo da direita. Também vale para o fascismo da esquerda e para o fascismo religioso. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os islâmicos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.” (http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/10/24/as-raizes-do-mal-haneke-explica-%E2%80%9Ca-fita-branca%E2%80%9D/)

A problemática do filme não é localizada, mas universal. O filme que venceu a Palma de Ouro em Cannes – tirando de cena um Tarantino e um Almodóvar – talvez seja mais complexo do que parece.


prêmios:

OSCAR
Indicações
Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Fotografia

GLOBO DE OURO
Ganhou
Melhor Filme Estrangeiro

BAFTA
Indicação
Melhor Filme Estrangeiro

FESTIVAL DE CANNES
Ganhou
Palma de Ouro
Prêmio FIPRESCI

FESTIVAL DE SAN SEBASTIÁN
Ganhou
Prêmio FIPRESCI

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pedro Almodóvar - uma análise


Almodóvar é um cineasta peculiar em muitos aspectos, sem dúvidas um dos melhores de nosso tempo, tendo em vida o devido reconhecimento que merece. Nessa pequena análise, começarei apontando determinadas características que são comuns a sua obra ou se repetem com frequência.
Almodóvar é antes de mais nada um artista – no sendo intrínseco e pleno da palavra –, contudo é essencialmente um artista do cinema. Não que ele se destoe em inovação técnicas ou recursos cinematográficos; ao contrário, sua produção, longe de se utilizar dos apetrechos e truques de mágica do pobre cinema industrial, é bastante simples. O fato, porém, é que suas obras são primordialmente a imagem, o visual. O contato quase palpável com a imagem exuberante, os figurinos trabalhados, a trilha sonora quase eloqüente, a fotografia multicolorida e quase ofuscante e a interpretação forte dos atores e, principalmente, das atrizes, torna sua arte impraticável no formato de um livro, por exemplo. Pelas mesmas características, é difícil imaginar um filme de Almodóvar em preto & branco. Sua obra é essencialmente cor, essencialmente vida, vibração, intensidade, quase uma magnitude, uma prepotência. Sua imagem nos mostra que ele se dá o valor que tem: não há humildade; não são obras que nasceram por acaso e se tornaram reconhecidas, elas nasceram pra serem reconhecidas, nasceram impactantes, nasceram fazendo estardalhaço. Como se a imagem fosse explodir da tela e nos mergulhar num prisma de cores e sons. Tudo nele é excessivo.
Diz-se do cinema como a arte em que se fundem todas as outras. Se assim o é, Almodóvar é a demonstração final e minuciosa disso.

- Pintura
A fotografia das maiores obras de Almodóvar são tão vibrante que parece de fato que o cenário foi pintado a tinta, lembrando a velha coloração em Techinocolor de clássicos de Hollywood: com a diferença que, neste, os cenários são pintados digitalmente, enquanto naquele são reais. Olhamos para uma imagem de Almodóvar; então olhamos em volta e estranhamos: o mundo não é tão colorido assim. Parece que as cores são puras, quase que incorruptíveis, parece de fato tinta. Mesmo em caso raro em que se opta por uma coloração menos reluzente e mais sombria, como em “Má Educação”, onde nos deparamos com tétricos jogos de sombras, sente-se o preciso impacto de determinada combinação de cores, como que milimetradas por um hábil pincel antes de tocarem pontualmente a tela e inundarem nossos olhos.
A contemplação estática de uma imagem almodovariana já nos acomete com uma enxurrada de sentimentos e emoções, já transmite um quê autoral. Não há indiferença.

-Música
Almodóvar cede de vez em quando à tentação fácil das trilhas incidentais tradicionais, contudo o que perpassa e marca sua obra é uma música vibrante que se associa com os demais instrumentos cinematográficos de modo a ter papel essencial na construção das emoções, sensibilidade e empatia no cerne do espectador. “Fale com Ela” não derramaria tantas lágrimas sem o forte flamenco; “Volver” não seria o mesmo sem o tango magistralmente interpretado por Penélope Cruz. A música transborda em seus filmes, quase como se assistíssemos a um concerto, mas a um concerto da eloquente música espanhola.

-Teatro e o próprio cinema
Sem cair no frio discurso metalinguistico ou na ultrapassada ironia romântica, Almodóvar aborda o teatro e o próprio cinema em vários momentos.
Uma das obras mais reconhecidas do diretor é totalmente permeada de referências e homenagens ao cinema e ao teatro. A trama de “Tudo sobre minha mãe” se desenrola após o garoto Esteban correr atrás de um autógrafo da atriz de teatro Huma Hojo (que interpreta a personagem Blanche Dubois da peça “Um Bonde Chamado Desejo”) e ser atropelado. Essa sensacional peça de Tenesse Williams terá um significado simbólico durante toda a história, já que, além do fato mencionado, foi na atuação de uma montagem amadora dessa mesma peça que os pais de Esteban se conheceram, anos atrás. Além disso, Huma Hojo é fanática por Bette Davis (afirma até mesmo ter começado a fumar por causa dela), esta que é a atriz predileta de Pedro Almodóvar, um de seus maiores ícones do cinema, segundo declaração do próprio (é possível vê-lo falando isso e outras experiências no cinema nos extras do DVD de “Volver”). O próprio título do filme, “Tudo sobre minha mãe” (título de um projeto de Esteban, que era escritor), é inspirado no maior clássico de Bette Davis, A Malvada, cujo título original, All About Eve, recebeu uma tradução nada-a-vê, fato que Esteban critica. Para completar, o filme termina com uma dedicatória a Bette Davis e “todas as atrizes que interpretaram atrizes”, entre outras coisas. E Almodóvar demonstra, como veremos depois, como de fato amava essa projeção de um filme em outro, utilizando ele mesmo em seus filmes de intricados jogos de espelhos.
“Fale com Ela”, que veio depois deste, se utiliza do teatro novamente, mas dessa vez não como referência ou homenagem, mas sim inserido de modo fundamental na construção da emotividade nos espectadores. O filme abre com uma cena de teatro e fecha com outra cena de teatro. A cena de abertura nos introduz na melancolia e intensidade que permeará todo o filme – de modo que mergulhamos de cabeça dentro do universo que nos consumirá nas próximas duas horas – e aos personagens principais, Benigno e Marco, que, ainda sem se conhecerem, por coincidência assistem à peça lado a lado. Marco, quarentão, chora, o que se mostrará significativo. A cena final une novamente dois personagens – que se conheciam mas não se conheciam – e dá um desfecho a esse universo, nos devolvendo o ar que seguramos por tanto tempo e dando liberdade para que nossas lágrimas contidas finalmente aflorem.
“Má Educação”, que por sua vez veio depois deste, tem como protagonistas dois amigos: um diretor de cinema e um ator. Este, de nome Ignácio, escreveu um roteiro cuja primeira parte é baseada na infância dos dois em um internato católico; roteiro que será filmado por aquele, o Enrique. Aparentemente um caminho fácil para uma obra puramente metalingüística, mas não é nada disso. Contudo, o que está presente, e marcante, é arte do “ator que interpreta um ator” – aliás Gael García Bernal acaba desenvolvendo ao longo da trama três papéis. Além disso, um episódio marcante da infância dos dois amigos ocorre numa sala de cinema.
Em “Volver” – que veio depois de “Má Educação” – a referência ao cinema é menor e menos significativa, mas está presente: é graças a um grupo de 25, 30 pessoas que estava gravando um filme nas proximidades que Raimunda se apossa do restaurante de Emílio. Claro que não poderia ser um grupo de engenheiros, de estudantes ou de qualquer outra coisa.
O último filme de Almodóvar, “Abraços Partidos”, conta a história de Harry Caine, um cineasta que perdeu sua visão e seu nome. Um olhar de Almodóvar sobre si mesmo – o filme de Harry Caine cuja produção movimentará o enredo é uma referência inconfundível a “Mulheres à beira de um ataque de nervos –, num momento melancólico de sua vida, quando passava por uma espécie de crise existencial. Além de, nas palavras do próprio diretor, ser uma “declaração de amor a Penélope Cruz”.

-Literatura
Essa arte milenar se expressa no trabalho preciso do roteiro, com uma dolorida marca autoral, tramas minuciosamente articuladas, personagens profundos e fortes e a abordagem de vários temas, dentre os quais talvez o que mais se destaque seja a sexualidade.
A construção da trama dos filmes de Almodóvar não segue a linha que se tornou marca do cinema europeu: uma história com poucos acontecimentos objetivos a fim de se obter enfoque na subjetividade dos personagens. Tampouco segue a linha norte-americana, com muita ação e personagens superficiais ou caricatos. Pode-se dizer que seu cinema, um fenômeno isolado, une essas duas tendências, na medida que suas histórias são repletas de acontecimentos, reviravoltas de trama, altas revelações, uma linguagem rápida e prática, e ao mesmo tempo confere aos personagens um amplitude psicológica e emotiva extremamente humana. O fato é que o enredo é trabalhado, talhado de modo preciso e pontual, afim de, usando como artífice sucessivos “bums” no desencadeamento da ação, fazer com que a alma dos personagens seja desvendada de modo progressivo e gradual. São como máscaras que caem uma a uma a cada reviravolta da trama, a cada revelação. Cada vez que nos surpreendemos e nos extasiamos com um acontecimento súbito, também conseguimos, por consequência, enxergar mais profundamente o personagem com o qual estamos lidando. Para que assim se dê, não é necessário o apego à cronologia da história, fato que muitas vezes torna o trabalho preciso do enredo ainda mais complexo, como é marcante em “Fale com Ela” e, principalmente, em “Má Educação”.
Alguns exemplos de como a ação prática, as reviravoltas de trama servem quase que como pretexto para um aprofundamento progressivo dos personagens se têm em “Tudo sobre minha mãe”. Quando se descobre que Rosa, a freira interpretada por Penélope Cruz, está grávida, descobrimos muito sobre ela. Ou quando descobrimos que o pai de Esteban é um travesti, muito é compreendido não apenas acerca dele, mas acerca da própria mãe de Esteban. Em “Fale com Ela”, o fato inusitado de Benigno fazer sexo com a Alicia em coma nos proporciona uma visão extremamente profunda e delicada desse personagem tão peculiar. Todos esses fatos que, nas mãos de um diretor banal, se transformariam em discurso moralista e entretenimento sensacionalista, aqui são tratados de modo muito sensível, quase como se analisássemos os personagens com uma lupa, de longe, com medo de tocarmos-lhes.
Tudo isso é possível porque Almodóvar exprime em sua obra uma forte marca autoral – como nas melhores obras de arte. Não em aspectos autobiográficos – apesar dele ter passado a infância na pequena vila de “Volver” e ter estudado em um internato como em “Má Educação” – mas na sensibilidade e na empatia que são transmitidas, no modo de ver a vida e na expressão da sexualidade que é marcante em toda sua obra, quem sabe desde sua origem.


Passando por sexualidade e outros tópicos, farei a seguir uma pequena lista de temas que se repetem durante a carreira de Almodóvar.

- A “primeira vez” traumática
O personagem de Antônio Bandeiras em “O Matador” tenta estuprar uma moça para perder a virgindade, mas devido à própria falta de experiência ele não consegue, “gozando para fora”.
Victor Plaza (Liberto Rabal) , de “Carne Trêmula”, se apaixona pela moça com a qual perdera a virgindade, para a qual aquilo não passara de um sexo casual, fato que desenrola toda um trama cheia de reviravoltas.
O menino Ignácio, de “Má Educação”, vê seu primeiro amor em Enrique, mas, traumaticamente, tem sua primeira vez, muito cedo, com seu professor de literatura, um padre pedófilo.

-O homossexualismo
O sexo homossexual é explícito em “A Lei do Desejo”, um filme magnífico para quem estava praticamente no início da carreira.
Na fase mais madura do diretor, o homossexualismo é abordado de diferentes formas: da delicada sensibilidade de “Tudo sobre minha mãe” ao quase tétrico de “Má Educação”. Em todos os casos a análise é profunda e bem articulada. O homossexual nunca é tratado de modo apático (a “pobre e indefesa minoria que é vítima dos preconceitos sociais”), muito menos de modo grosseiro (com preconceito). Ele é um ser humano, com as fragilidades de um ser humano, mas também com a força e intensidade de seres humanos almodovarianos, apaixonados. Almodóvar, ele próprio homossexual, sabia com o que estava lidando.

-Abuso sexual
Também leva várias abordagens: a ingenuidade do “Matador”, a paixão delicada de “Fale com Ela”, a paixão sombria e doentia de “Má Educação”, o desejo impulsivo de “Volver”

-Consumo de drogas
Almodóvar é um dos raros cineastas que consegue retratar as drogas ao mesmo tempo sem complacência e sem moralismo: apenas com a realidade.
Nina (Candela Peña) de “Tudo sobre minha mãe” é uma atriz de teatro que vive uma crise pessoal e profissional devido a sua dependência de heroína. O Ignácio travestido de “Má educação” se torna um fardo para a família devido, em grande parte, ao mesmo motivo. Já Agustina (Blanca Portillo, estreante no universo almodovariano), é mostrada fumando seu baseado em “Volver” de modo bastante descontraído e despretensioso, até um pouco cômico.
A referência às drogas aparece em muitos outros momentos em outros filmes.

-Religiosidade
O quase fanatismo católico que acomete a península Ibérica até hoje é encarada sob um viés crítico por Almodóvar (que se declara agnóstico). Contudo, não podemos considerá-lo um “anti-clerical”, e é exatamente esse o ponto em que ele ganha autoria e originalidade: criticar a hipocrisia sem cair na outra hipocrisia que é o olhar unilateral de muita “esquerda festiva”.
Almodóvar critica a instituição, mas mostra os seres humanos como falhos, não maus. Em nenhum momento a freira Rosa, de “Tudo sobre minha mãe”, é julgada aos olhos do espectador por ter engravidado. Porque conseguimos enxergá-la como ser humano antes de enxergá-la como freira. Até Manolo, o padre pedófilo de “Má Educação”, é visto sob uma ótica de sensibilidade, que aprofunda psicologicamente o personagem até que todas as suas ações aparentemente desumanas se tornem compreensíveis (não justificáveis, mas compreensíveis), e, afinal de contas, já que oriundas de uma personalidade complexa e permeada de oscilações, essencialmente humanas.
Almodóvar não combina com filme panfletário. Ele não fecha a mente para um julgamento – como se um ser humano tivesse capacidade de julgar outro –, mas a abre para que absorva a transbordante amplitude que é a contraditória e amoral alma humana.
E se, por um lado, consegue ser crítico, por outro, consegue ser bem ameno: Victor Plaza, tão apegado a sua Bíblia, consegue ser apesar de tudo tocante e carismático, causando uma sensível empatia no espectador de “Carne Trêmula”.

-Universo feminino (?)
Muitos críticos apontam na obra de Almodóvar a abordagem intimista do mundo feminino (isso mesmo, à lá Chico Buarque), que teria um embrião no clássico “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. Contudo, reparei que, curiosamente, a “abordagem ao mundo feminino” e a ao mundo masculino estão até bem equilibrados: primeiro que “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, por ser uma comédia despretensiosa, não apresenta mais que uma caricatura cômica do que se chama “universo feminino”. Dentre os filmes realmente eficientes e profundos nessa tal abordagem destacar-se-ia “Tudo sobre minha mãe” e “Volver”. Enquanto isso, filmes como “Carne Trêmula”, “Fale com ela”, “Má Educação” são exemplos maravilhosos de filmes com perspectivas masculinas. Não consigo perceber porque o viés feminino seria uma marca registrada de Almodóvar, e discordo dessa afirmação.

-Amizade passional
Marco e Benigno de “Fale com ela” e Ignácio e Enrique de “Má Educação” são apenas exemplos de amizades profundamente passionais e permeadas de conflitos. Também se poderia citar os protagonistas de “Carne Trêmula” e mesmo os de “A Lei do Desejo”.****

-Outros (menos comuns)
Almodóvar já afirmou odiar esses “programas de televisão que promovem a fama pela fama”. E ele chega a mostrar isso em retratos profundamente cruéis e satíricos desse universo televiso nos filmes “Fale com ela” e em “Volver”.
A senilidade também pode ser apontada na obra almodovariana, já que velinhos caducos aparecem até com certa frequencia. Lucia (Julieta Serrano), de “Mulheres a beira de um ataque de nervos”, é retratada com uma arma na mão de modo cômico e descontraído. O pai da freira Rosa, em “Tudo sobre minha mãe”, é a melhor abordagem que Almodóvar conseguiu, traduzindo de modo sensível e até emocionante um senhor que não reconhece a filha e tem um ciúme possessivo, porém inofensivo e ingênuo, pela mulher. A senilidade aparece novamente na tia Paula de “Volver”.



Abordagem individual
Na obra de Almodóvar os temas polêmicos deixam o universo social e passam para o individual. Desse modo, nunca se apossam da trama (tendência fácil para o filme panfletário), mas são utilizados por ela, de modo a enriquecê-la. A sexualidade, as drogas, a religião: tudo isso é abordado de modo a enfocar a repercussão na vida, na personalidade e nos desejos dos personagens, não sua repercussão social. O coletivo não interessa nos filmes de Almodóvar. Um exemplo é o modo como o tema da doação de órgãos, abordado no início de “Tudo sobre minha mãe”, é desenvolvido. Com grande tendência para cair num discurso, seja a favor, seja contra a doação de órgãos, sucede-se uma abordagem intimista do efeito que a doação dos órgãos do filho morto acarretou em Manuela. “Fale com ela” não chega perto de cair numa discussão sobre eutanásia. Nem “Carne Trêmula” em uma sobre deficiência física (não há aquele enfoque batido na tal da ética, que, por ser só um chavão formal e não se aplicar na vida humana em si, não lhe interessa). Até mesmo o ataque ao catolicismo é transposto pelos enredos para o plano individual e intimista. Não há política nos filmes de Almodóvar. Mesmo assim, ele causou incômodo à crítica espanhola, segundo a qual seus filmes faziam um retrato falso da Espanha e o vendiam como fidedigno. Prova que para os mais reacionários é difícil até mesmo conceber a própria essência humana: a amoralidade, o desejo, as contradições psicológicas, coisas intrínsecas, decaíram ao patamar de heresias.



Paixão
Os personagens são essencialmente humanos, humanos porque têm paixão. Eles não são arrastados pela vida, não são passivos, eles são a própria vida, são violentos, são viris. Antônio Bandeiras amarrando Victoria Abril numa cama até que ela o ame, em “Ata-me”, é paixão. Javier Câmara (em “Fale com Ela”) conversando todo dia com uma moça em coma que, quando lúcida, nunca lhe dera atenção, transando com ela e planejando casar-se: isso é paixão. Creio que Almodóvar nunca fez um filme sobre amor. Mas sua obra é a própria paixão, exposta através da arte que é o cinema.


-Análise comparativa: “Má Educação” e “Volver”


Escolhi esses dois filmes para desenvolver um pouco porque foram feitos um em seguida do outro e foram ambos recebidos do jeito errado: “Má Educação” recebeu muito menos atenção e crédito do que deveria e “Volver” recebeu mais.
“Má Educação” sofreu reservas mesmo antes de seu lançamento, já que o conservadorismo espanhol (um país até hoje dominado pelo catolicismo) julgou que ele faria um filme anticlerical. Claro que não é nada disso. O próprio Almodóvar fez um comentário engraçado: “Isso não faz falta [o filme não ser anticlerical]. A Igreja degrada-se a si mesma cada vez que faz declarações à imprensa. Ao menos na Espanha, o pior inimigo da Igreja é ela mesma”.
Na mesma entrevista, realizada em Cannes, Almodóvar explicou que baseou o título do filme na educação que ele e outros espanhóis receberam, fundada no medo, no castigo, no sentimento de culpa. “A educação perfeita para psicopatas. É um milagre que eu tenha crescido normal”. Não que seja uma obra autobiográfica; ele mesmo afirmou não ser, apesar de ter estudado em ambiente semelhante e vivido na Madri dos anos 80, fatos que dão autoria, algo essencial a todo filme artístico.
Tudo isso são exemplos de como “Má Educação” é abrangente, explorando vários temas sem cair no discurso panfletário e conseguindo ser extremamente sensível, conforme demanda o cinema almodovoriano. Ao mesmo tempo, contudo, o filme nos poupa daquela sensação de “já vimos isso”, ao mostrar um Almodóvar bastante diferente: longe de ser uma figura unilateral, ele consegue ser sombrio, consegue abafar suas cores. E provavelmente isso mesmo que tenha assustado, provocando no público uma certa desconfiança, e tenha impedido uma recepção maior e mais calorosa. Hoje é uma de suas obras menos conhecidas, apesar de ser razoavelmente recente (2004)
Ao contrário de “Volver”, que já podemos chamar de clássico apesar de ser de 2006. A volta de Almodóvar à estética multicolorida e descontraída foi acolhida de braços abertos, contudo este está longe de ser um de seus melhores filmes do estilo (embora, claro, esteja absolutamente longe de ser um filme ruim).
Penélope Cruz, por exemplo, consegue uma boa atuação, como sempre, mas não consegue encarnar de fato uma personagem com os traumas que ela tem. Talvez seja exigir demais dela – após vê-la como a freira de “Tudo sobre minha mãe” é natural que acabemos lhe cobrando muito. Ou talvez a falha nem mesmo dela seja: o próprio filme simplesmente jogue a história do abuso pelo pai de modo um tanto desfalcado, pela mera necessidade de se conseguir uma revelação inesperada que chocasse e explicasse algumas brechas na parte objetiva do enredo. Explica-se tais brechas, contudo não choca. Não choca porque não enxergamos na personagem de Penélope Cruz uma pessoa que sofreu abuso do pai. Não enxergamos nela nem alguém que sofre por isso, nem alguém que reprime isso. Nem alguém que sublime nem nada do tipo. Simplesmente não enxergamos esse abuso nela. E tudo o que essa revelação dramática tira do público é um “ahhhhhh” de compreensão. Nada de lágrimas ou mesmo um mínimo de empatia.
Do mesmo modo, a filha de Raimunda não parece ter matado o “pai”. Até nos esquecemos disso durante o filme. Lembramo-nos disso apenas num momento, quando ela grita algo como “acha que é fácil pra mim ter matado meu pai?”, ao que sua mãe responde “Ele não era seu pai. Depois da festa te conto tudo”, lembrando vagamente o começo de “Tudo sobre minha mãe”. Felizmente a menina não é atropelada.
Tudo isso é culpa das atrizes? Ou da direção?
E por que afinal de contas a avó Irene não conta para sua filha, Sole, que definitivamente não é um fantasma?
“Volver” não é um mal filme. Nessa fase de sua carreira, Almodóvar nem se quisesse realizaria filmes ruins – embora o ainda mais recente “Abraços Partidos”, de 2009, também não seja de seus melhores filmes, recebendo, dessa vez, a recepção adequada (não gerou muito entusiasmo no festival de Cannes). “Volver” desenvolve alguns temas, mostra um interessante panorama da vida em vilas em contraste com a vida das grandes cidades, evidenciando o caráter supersticioso; também tem um roteiro inteligente, como sempre, além de nos deliciar com momentos lindos, mantendo sua estética descontraída que torna o filme saboroso.
Mas lhe falta bastante para ser tudo o que a recepção lhe exaltou, e tudo o que um Almodóvar promete. E isso pode pesar ao diretor, mas não sejamos cínicos: a essa altura, é já impossível que um Almodóvar não prometa muito.



prêmios:

- Recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor, por "Fale com Ela" (2002).

- Ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original, por "Fale com Ela" (2002).

- Recebeu 2 indicações ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, por " Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988) e "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999). Venceu em 1999.

- Ganhou o BAFTA de Melhor Diretor, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Recebeu uma indicação ao BAFTA de Melhor Roteiro Original, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Recebeu 3 indicações ao BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, por "Carne Trêmula" (1997), "Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos" (1988) e "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999). Venceu em 1999.

- Recebeu uma indicação ao Independent Spirit Awards de Melhor Filme Estrangeiro, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Recebeu 3 indicações ao Cesar de Melhor Filme Estrangeiro, por "Ata-me!" (1990, "De Salto Alto" (1991) e "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999). Venceu em 1991 e 1999.

- Ganhou um César honorário, em 1999.

- Recebeu 3 indicações ao European Film Awards de Melhor Diretor, por "Fale com Ela" (2002), "Má Educação" (2004) e "Volver" (2006). Venceu por "Fale com Ela" e "Volver" .

- Recebeu 3 indicações ao European Film Awards de Melhor Diretor - Júri Popular, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999), "Fale com Ela" (2002) e "Má Educação" (2004). Venceu por "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela".

- Recebeu 2 indicações ao European Film Awards de Melhor Roteiro, por "Fale com Ela" (2002) e "Volver" (2006). Venceu por "Fale com Ela".

- Recebeu 7 indicações ao Goya de Melhor Diretor, por "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), "Ata-me!" (1990), "A Flor do Meu Segredo" (1995), "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999), "Fale com Ela" (2002), "Má Educação" (2004) e "Volver" (2006). Venceu por "Tudo Sobre Minha Mãe".

- Recebeu 5 indicações ao Goya de Melhor Roteiro Original, por "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), "Ata-me!" (1990), "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999), "Fale com Ela" (2002) e "Volver" (2006). Venceu por "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos".

- Ganhou o Grande Prêmio Cinema Brasil de Melhor Filme Estrangeiro, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Cannes, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes, por "Volver" (2006).

- Ganhou o prêmio Teddy de Melhor Filme de Lançamento, no Festival de Berlim, por "A Lei do Desejo" (1987).

- Ganhou em 1988 o prêmio Osella de Ouro, no Festival de Veneza, por seu trabalho como roteirista em "Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos" (1988).

- Ganhou o Kikito de Ouro de Melhor Diretor, no Festival de Gramado, por "De Salto Alto" (1991).

- Recebeu uma indicação ao Kikito de Ouro de Melhor Filme Íbero-Americano, no Festival de Gramado, por "De Salto Alto" (1991).

- Ganhou em 2000 o Prêmio International Filmmaker, no Festival Internacional de Palm Springs.

- Ganhou o prêmio FIPRESCI de Filme do Ano, no Festival Internacional de San Sebastián, por seu trabalho em "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Ganhou o Prêmio Escolha do Público, no Festival Internacional de Toronto, por "Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos" (1988).

- Recebeu uma indicação ao Satélite de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, no Festival Golden Satellite, por "Carne Trêmula" (1997).

- Ganhou o Prêmio Bodil de Melhor Filme Não-Americano, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Ganhou o Prêmio Círculo Precolumbiano de Ouro, no Festival de Bogotá, nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Roteiro, por "A Lei do Desejo" (1987).

- Ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, no German Film Awards, por m "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Recebeu uma indicação ao Ariel de Prata de Melhor Filme Latino-Americano, no Festival da Academia do México, por "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999).

- Ganhou o prêmio Internacional Fantasi Film de Melhor Diretor, no Fantasporto, por "Matador" (1986).