domingo, 9 de maio de 2010

Pink Floyd - The Wall


Designed by Gerald Scarfe
With Bob Geldof as Pink
film Music Produced by Roger Waters, David Gilmour and James Guthrie
Executive Producer Steve O’Rourke
Produced by Alan Marshall
Animation Directed by Gerald Scarfe
Screenplay by Roger Waters
Directed by Alan Parker
(dados retirados diretamente do encarte do dvd)
elenco:
• Bob Geldof (Pink)
• Christine Hargreaves (Mãe de Pink)
• James Laurenson (Pai de Pink)
• Eleanor David (Esposa de Pink)
• Kevin McKeon (Jovem Pink)
• Bob Hoskins (Empresário)
• David Bingham (Pequeno Pink)
• Alex McAvoy (Professor)
• Marjorie Mason (Esposa do professor)
• Ellis Dale (Médico)
• Robert Bridges (Médico americano)
• Ray Mort
• James Hazeldine
• Jenny Wright
Nota: 10 (parâmetro/categoria: cinema)

Trata-se meramente de um dos filmes mais poéticos da história. Profundo, sensível, sarcástico, impiedoso, o filme, através de letras delicadas de músicas delicadas e imagens intensamente delicadas, desconstrói toda uma cadeia de valores através da construção de um muro. Construir e desconstruir: é a temática que transpassa toda a obra. E é o que acontece conosco ao nos depararmos com obras de arte verdadeiras: nos construímos e nos desconstruímos. E às vezes isso dói.

- A construção do muro
The Wall quer que doa, e não tem pudor nenhum ao fazer doer. A imagem da mãe de Pink é tão desconcertante porque é terrivelmente material, é uma imagem quase palpável. O filme não constrói uma personagem peculiar, uma mãe que tem determinados defeitos a serem apontados, defeitos que seriam realçados e enfatizados pra justificar o tijolo que ela representa no muro de Pink. Não. A mãe de Pink é um tijolo em seu muro apenas por ser mãe: em última instância, todas as mães são tijolos no muro de seus filhos; em última instância, todos começam a construir seu muro na maternidade.
Nossas mães nos passam seus medos. Não por maldade, ao contrário, por serem mães demais. Ou de menos. Por simplesmente terem parido, por terem em seus filhos uma parte de si mesmas.
Do mesmo modo, a guerra é simplesmente a guerra, não é uma guerra injusta, uma guerra de fins sujos, ou pode até ser, mas isso tudo só seria procedente do fato de em primeira instância tratar-se de uma guerra. Pink perdeu seu pai na guerra, e tudo o que resta é a foto no álbum. Roger Waters transmite-nos tão bem essa sensação porque ele próprio perdeu seu pai na guerra. Mas o fato é que nós próprios, como seres humanos, perdemos muito de nós próprios em todas as gerações passadas perecidas em guerras. Todos nós perdemos nossos pais. A guerra é a lenta degeneração de uma alma coletiva.
Tudo isso é apenas mais um tijolo no muro.
E a escola! Ah, a escola... sendo nada mais que uma continuidade da família, da estrutura de legitimidade e hierarquia da família, da transmissão vertical de conhecimento, nada menos coeso que se constituir em mais um e definitivo tijolo. Rendendo um dos trechos mais famosos do filme, que muitas pessoas conhecem apesar de desconhecerem a existência do filme (eles julgam ser o clipe da música “Another Brick in the Wall part.2”). As crianças compartimentadas como em campo de concentração, trabalhando em uníssono como em linhas de montagem (literalmente sobre esteiras), sendo moídas e tornando-se carne, a matéria bruta, insensível, científica, fria, apática, modelável. A criança ideal. A criança que não vai botar fogo em tudo igual Pink imaginou.
Apenas mais um tijolo nesse muro. Mãe, precisava ser tão alto?

A repressão sexual. Não a repressão a minorias sexuais – o filme não constrói situações peculiares a serem criticadas – mas a repressão sexual dentro do casamento – existiria maior repressão do que num ambiente em que sexo deixou de ser prazer, desejo e paixão para tornar-se um contrato formal? Talvez não dir-se-ia repressão, mas sim opressão. Os tijolos de Pink são muito genéricos, Pink é muito genérico, o filme é muito genérico: ele não trata de particularidades, mas do muro que o homem comum constrói sobre si, o muro que é construído com a ajuda de todas essas instituições nas quais estamos inevitavelmente mergulhados, o muro que quiçá todos nós temos, o muro sem o qual talvez nem conseguíssemos olhar para o horizonte: só olhamos para ele porque não o vemos. Se o víssemos, nos ofuscaríamos.
Todas essas instituições são encaradas não com uma olhar social, metodológico, através de uma ótica de critica objetiva, mas ao contrário, através de uma estética individual, profundamente subjetiva, e não apenas subjetiva, mas poética, absurdamente poética, agonizantemente poética. É uma poesia que brada, que grita, clama, que chora, que não é inoculada na gente, mas que, ao contrário, nos perpassa com a pressão de um tiro. O que são aquelas imagens que resumem absolutamente tudo o que se pode dizer sobre a guerra em alguns minutos? Uma pomba branca voa, voa pelo céu, de repente explode, de dentro dela sai um monstro negro. Aviões de guerra transformam-se em cruzes voando no céu. Seres deformados cujos rostos são máscaras de gás desnorteados, apavorados mas sem rumo a tomar. Uma bandeira da Inglaterra (simbolicamente porque trata-se de um filme inglês): o azul da bandeira desmorona, o que resta assume-se cruz, o vermelho da bandeira escorre como sangue. Essas imagens são tão perfeitamente simples, simples no sentido de claras: elas transmitem tudo sem precisarem dizer nada. Nada além do que declamam as belíssimas letras. Somente o título da música dessa cena já traduz tudo o que tem a ser dito, com três palavras: Adeus céu azul.
E as imagens sobre a relação entre os cônjuges? As que falam sobre a opressão sexual? Sim, aquele momento em que surgem na tela duas plantas, uma em formato fálico, simbolizando o homem, outra aberta como uma vagina, simbolizando a mulher. Se não são essas imagens a mais límpida, simples, e clara poesia não sei o que são. Tudo o que se pode dizer sobre casamento está ali. Ali estão as carícias, os afetos, está o ápice que é a cópula, até que as plantas criam dentes e começam a se destruir mutuamente, tudo o que era promessa vira tragédia, até que uma planta engole a outra, cria asas negras e sai voando. O que precisamos fazer para preencher espaços vazios? Daí parte-se para uma parábola sobre consumismo. Considerando que consumimos pessoas, é simplesmente brilhante.
Como eu posso completar o muro? Pink já tem o espectro da guerra, o espectro da própria mãe, sua “formação” (ou antes “deformação”) escolar, tem sua mulher transando com outro cara, já que com ele isso não é possível. Todos os personagens de sua vida lhe aparecem com a cara pintada de palhaços. E Pink... Pink é um peso morto, afundando em sua cadeira, assistindo tv, com uma lâmpada ao lado (é sempre esse o conjunto, uma cadeira, Pink, uma tv passando um filme de guerra, e uma lâmpada, por mais que o cenário para isso mude, sendo um quarto, um espaço vazio cheio de mato, ou a estação de trem onde estão desembarcando os sobreviventes da guerra). Pink nada faz além de segurar o mesmo cigarro já findo há muitos séculos. Ligar para sua mulher sabendo que ela está transando com outro cara e não vai atender. Assistir tv. Pink não tem mais energia sexual (e visando a análise freudiana segundo à qual isso move o homem, Pink está imóvel). A “moça safada” que tenta lhe seduzir não lhe causa desejo, mas sim um ataque abrupto e intempestivo de furor e violência, em que ele quebra todos os seus móveis e afunda a mão no vidro da janela, deixando marcas que durarão durante o resto do filme. Pink está “confortavelmente entorpecido”.
E agora?

- O delírio
Através de outra imagem de poesia absurda, o filme mostra em Pink o que pareceu ser uma revolução, mas na verdade não é. O corpo de Pink está apodrecendo, ele se assemelha a uma múmia, com várias camadas de pele fétida em decomposição recobrindo o que sobrou – ou não sobrou – dele. Então ele começa a arrancar com as mãos a sua própria pele – essa pele podre. Ele começa a arrancar, vai arrancando, com determinação e violência, e parece inclusive que vai arrancar o último pedaço de si mesmo e sumir, mas de repente, por baixo da pele podre surge outro Pink, ele remove o resto dessa pele como se fosse uma roupa, e surge. Ressurge.
Renasce. Firme, viril, imponente, Líder. Ditador, fascista, racista, anti-semita, homofóbico, preconceituoso. Ao mesmo tempo Hitler e Stálin – o símbolo que ele se cria tem dois martelos, lembrando o martelo soviético, e ele o carrega no braço, semelhante ao modo que os nazistas carregavam a suástica. Ele renasce representando todo o extremismo reacionário, todo o desprezo às minorias, todo manipulador de massas. E as massas ganham a máscara que ele próprio e suas colegas usavam na escola – lembram-se da cena que todo mundo acha que é um clipe?
Isso lembra muito um filme recente de Michael Haneke que se utiliza do mesmo argumento – A Fita Branca. A construção da mentalidade extremista começa em criança, na educação repressiva, nas instituições que nos guiam e às quais nunca estamos inerentes. Mas Haneke é objetivo, é metodológico, quase meticuloso. The Wall mostra o mesmo argumento através de uma subjetividade tão poética que como que entramos no corpo do personagem e percebemos – não apenas entendemos, mas introjetamos – como tudo isso se sucedeu. E também garante ao argumento uma carga menor disso que é um erro crucial de quase todas as análises metodológicas feitas através de obras de arte: o determinismo. De repente Pink sente náusea por esse mecanismo de esquecer o próprio muro sem precisar desconstruí-lo – criar muros em volta dos outros – e berra agonizante: STOP!
E o delírio acaba. Diferente de em “A Fita Branca”, ele não é o tema principal: apenas uma sacada genial.

- A desconstrução do muro
Findo o delírio, Pink volta a reconhecer o próprio muro. E é o momento do julgamento – em suma, um dos momentos mais fantásticos da história do cinema.
Em uma cena longa inteiramente feita em desenhos – aqueles desenhos bem exagerados e expressivos característicos do filme, os personagens da vida de Pink são chamados como testemunhas para depor. E todos eles – professor, esposa e mãe – apenas legitimam a opressão que exerciam, criticando Pink por sua dificuldade em ser feliz com isso. Ao final de uma cena belíssima, o juiz dispensa o jurado, dizendo ser todo ele desnecessário, pois o crime de Pink foi tão indignante, ultrajante, desprezível – afinal, ele fora “pego em flagrante com sentimentos quase humanos”, ele tratara tão mal aqueles que o amaram, que a pena era indiscutível. A pena máxima. Pink seria exposto. Seu muro seria derrubado.
O muro de Pink não foi desconstruído, mas explodido. As interpretações plausíveis para esses momentos finais são várias e incompletas – ainda mais se considerando o finalzinho do finalzinho, em que aparecem crianças recolhendo os destroços do que fora o muro de Pink e os guardando em caminhõezinhos de brinquedos e outros utensílios. Mas uma coisa é clara: trata-se de um filme que precisa ser visto. Pelos sensíveis, pelos apaixonados, pelos artistas. Pelos loucos e alucinados. Pelos bêbados, pelos desvairados e os inconformados. Pelos conformados. E cada um que assistir construa a sua interpretação, que será só sua. Ninguém mais olhará para si mesmo – e para o próprio muro pessoal – do mesmo jeito após The Wall.




Prêmios:

The Wall foi apresentado em 1982 no Festival de Cannes e foi um relativo sucesso de público e crítica. Ganhou BAFTA nas duas categorias às quais foi indicado: Melhor Música Original ("Another Brick in The Wall, de Roger Waters) e Melhor Som

7 comentários:

  1. Fiquei sem palavras.
    Só me restou uma alternativa: Assistir novamente.

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  2. Uma crítica tão linda quanto o filme...
    Quando você diz que ninguém mais olhará para si mesmo – e para o próprio muro pessoal – do mesmo jeito após The Wall está mais do que certo, o filme faz pensar sobre o seu muro, nos tijolos que o construíram e nos que ainda vão aumentar o seu muro. A sua crítica realmente da vontade de assitir o filme novamente.

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  3. vocês assistam o filme novamente, pois!
    Já assisti 4 vezes, alias uma vez com vc e outra com vc

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  4. Filme perturbadoramente delicioso.
    Provocante.
    Adorei o blog.

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  5. The wall é um filme otimo , meio depressivo pq pink fika muito revoltado com a traição de sua mulher mas o filme é excelente , tenho DVD em casa , desenhos impressionantes NOTA : 10 !

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  6. CARA VOCÊ REALMENTE É UM GÊNIO!!! JÁ ASSISTI MAIS DE 100 VEZES, É VOCÊ CAPTOU A IDÉIA COM NINGUÉM!!!

    SÁBIO VOCÊ É MUITO SÁBIO!!! VAMOS TROCAR IDÉIA "CAROTO"

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  7. Perdi a conta de quantas vezes assisti desde que saiu.

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